sábado, 7 de julho de 2012

 Amizades de São Francisco:
Jacoba e Praxedes



Encontrar uma verdadeira amizade é, segundo as Escrituras, encontrar um tesouro. Na sua vida, São Francisco experimentou o significado de tão belo ensinamento. De fato, ele pôde contar sempre com a amizade de Clara, de Frei Leão, da senhora Jacoba, de Praxedes, etc.

Falaremos brevemente sobre a amizade de São Francisco com essas duas mulheres de Roma: Jacoba e Praxedes.



Jacoba de Settesogli

 No Tratado dos Milagres, o Frei Tomás de Celano nos oferece algumas informações sobre esta amiga do seráfico pai: “Jacoba de Settesogli, ilustre, seja por sua nobreza, seja por sua santidade, na cidade de Roma, merecera o privilégio de uma afeição toda particular da parte do santo” (3Celano 37,1).


Estando gravemente enfermo, e sabendo que iria morrer em breve, o pai Francisco mandou escrever uma carta à Senhora Jacoba “comunicando-lhe que se apressasse, caso desejasse ver aquele a quem tanto amara, o exilado, que estava para retornar à sua pátria” (3Celano 37,3). Antes do mensageiro sair com a carta, chega uma comitiva com a Senhora Jacoba para visitar o santo. Ele se alegrou de tal forma que disse aos frades: “Bendito seja Deus, que nos enviou o nosso irmão, Senhora Jacoba! Abri as portas e introduzi-a, pois o decreto que proíbe a entrada de mulheres não vale para Frei Jacoba” (3Celano 37,8-9).

Um detalhe importante é descrito por Celano: “Tudo quanto a carta pedia que fosse trazido para as exéquias do pai esta santa mulher o trouxera. Um pano cinza para cobrir o corpo moribundo muitas velas, um sudário para cobrir o rosto, um travesseiro para a cabeça, e mesmo algumas iguarias de que o santo gostava. Tudo o que o espírito desse homem desejara Deus havia trazido” (3Celano 38,3). O biógrafo diz que a presença desta nobre senhora “deu mais força ao santo, e havia a esperança de que ele viveria ainda um pouco mais” (3Celano 38,6).


Poucos dias depois morre o santo pai. A senhora Jacoba permaneceu até os últimos momentos ao lado do amigo querido. Frei Elias, o Vigário de São Francisco, entregou o corpo do santo para que a distinta senhora pudesse contemplar melhor aquele que se tornara imagem de Cristo aqui na terra. Disse-lhe o Frei Elias: “Eis aqui, toma nos braços, depois de morto, aquele a quem amaste quando vivo” (3Celano 39,1b). E Tomás de Celano afirma que ela, afastando o sudário, viu as cinco chagas de Cristo esculpidas na carne do bem-aventurado pai, e que esta contemplação trouxe-lhe grande consolação.




São Boaventura nos conta que São Francisco, em certa ocasião, passando por Roma, deixou um cordeirinho aos cuidados da Senhora Jacoba, e que “o cordeiro, como se tivesse sido instruído pelo santo nas coisas espirituais, ligou-se à senhora como companheiro inseparável quando ela ia à igreja, quando lá permanecia e quando retornava” (LM 8,7).



Quando visitamos o sepulcro de São Francisco, podemos ver na mesma cripta o lugarzinho onde estão os restos mortais desta santa mulher tão dedicada ao Pobrezinho de Assis.


Praxedes

O Frei Tomás de Celano também nos informa que São Francisco foi amigo de uma eremita romana, chamada Praxedes. Era uma mulher que vivia na reclusão de uma pequena cela, dedicando-se dia e noite à oração, ao silêncio e à penitência.

No Tratado dos Milagres, Celano fala brevemente sobre esta mulher e de sua relação com o seráfico pai:

“Praxedes era muito famosa, tanto entre as religiosas de Roma quanto em todo o território romano, porque desde a mais tenra idade, por fidelidade para com seu Esposo eterno, se recolhera numa cela estreita, já passados quase quarenta anos. Mereceu o privilégio de uma santa familiaridade para com São Francisco. O que este não fizera a nenhuma outra mulher, fez com ela, aceitando-a à obediência e concedendo-lhe, por piedoso devotamento, o hábito religioso, isto é, a túnica e o cordão”. (3Celano 181, 1-2).




Certo dia, sofrendo uma terrível queda, Praxedes teve vários ossos quebrados, ficando praticamente paralisada sobre o chão. Como a eremita não queria renunciar de nenhuma maneira o seu voto de perpétua clausura, mesmo sendo aconselhada por um cardeal, não aceitou a presença de outras pessoas que pudessem socorrê-la.

Então ela voltou-se para São Francisco e implorou o seu auxílio: “Ó santíssimo Pai meu, que em toda parte socorres com bondade às necessidades de tantos, que nem sequer conhecias quando vivo, por que não vens em auxílio desta infeliz, que, mesmo que indignamente, teve o privilégio da tua amizade, enquanto vivias? Realmente, faz-se necessário, como vês, ó Pai, ou mudar o meu voto, ou, então, sofrer o juízo da morte”. (3Celano 181, 8-9). Depois deste lamento, ela caiu num sono profundo e viu São Francisco que vinha até ela, dizendo: “Levanta-te, filha bendita, não temas! Recebe o dom da completa saúde e conserva inviolável o teu voto”. (3Celano 181, 11b-12). Assim, quando ela acordou, percebeu que estava totalmente curada, e pôde levantar-se e andar como antes.




Esta amizade, mesmo que descrita de forma muito breve por Tomás de Celano, parece ter sido intensa. Esta conclusão é confirmada pelas fortes expressões utilizadas pelo autor: “Mereceu o privilégio de uma santa familiaridade para com São Francisco”; e “Por que não vens em auxílio desta infeliz, que, mesmo que indignamente, teve o privilégio da tua amizade, enquanto vivias?”.



Através destes relatos podemos enxergar um santo que não teve medo dos mais nobres sentimentos humanos. Já estando liberto dos apegos egoístas, pôde cultivar nobres amizades que alegraram seu espírito até mesmo nos seus últimos instantes.

 





Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.

sábado, 2 de junho de 2012

Amizade entre Clara e Francisco



Muitas pessoas, influenciadas geralmente por filmes, acham que São Francisco e Santa Clara, quando jovens, foram enamorados e apaixonados um pelo outro. Para esclarecer essa questão vamos procurar nas fontes históricas alguns elementos que nos proporcionem uma visão adequada e verdadeira da relação entre esses dois grandes santos de Assis.


O estudioso Optatus van Asseldonk nos assegura que, antes da conversão, São Francisco não teve nenhum contato com Clara: “Nas fontes históricas não há nenhuma alusão a um eventual contato direto entre os dois jovens, antes do seu relacionamento espiritual-vocacional.” (Dicionário Franciscano, Vozes, 1999, pág. 37).


Lembremo-nos de que Francisco era mais velho do que Clara pelo menos onze ou doze anos. Ele nasceu em 1181 ou 1182 e ela nasceu em 1193 ou 1194. Quando Francisco se despoja diante do bispo de Assis e se veste como eremita, Clara era uma menina de doze ou treze anos enquanto ele já tinha por volta de vinte e quatro anos.



Como foi a origem da amizade entre os dois santos?
Vejamos o que nos informa a Legenda de Santa Clara:

“Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo (...).
Ele, conhecendo a fama de tão agraciada donzela, não tinha menor desejo de ver e falar com ela (...). Ele a visitou, e ela o fez mais vezes ainda, moderando a frequência dos encontros para evitar que aquela busca divina fosse notada pelas pessoas e mal interpretada por boatos.
A moça saía de casa, levando uma só companheira, e frequentava os encontros secretos com o homem de Deus (...).
O Pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. (...)
Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus.” (Legenda de Santa Clara 5-6).



No Processo de Canonização a Irmã Beatriz, monja em São Damião e irmã carnal de Clara, nos informa sobre os inícios da amizade entre os dois santos:
“Disse que São Francisco, conhecendo a fama de sua santidade, foi visitá-la muitas vezes para lhe falar e que a virgem Clara concordou com o que ele dizia, renunciou as coisas terrenas e foi servir a Deus o mais depressa que pôde.” (Proc. De Canonização, 12ª testemunha).



No seu Testamento, Clara recorda a promessa que São Francisco tinha feito a ela e suas irmãs:
“Vendo o bem-aventurado Francisco que nós, embora frágeis e fisicamente sem forças, não recusávamos nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação, nem humilhação ou o desprezo do mundo ... alegrou-se muito no Senhor. E, movido de piedade para conosco, assumiu o compromisso, por si e por sua Ordem, de ter sempre por nós o cuidado diligente e a mesma atenção especial que tinha para com seus irmãos.
E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião.” (Testamento 27-30).



Mesmo não sendo frequentes os encontros de Francisco com Clara e suas irmãs, ele as amava com profundo amor fraternal:
“De vez em quando, admirando-se os irmãos de que ele não visitasse mais frequentemente tão santas servas de Cristo com sua presença corporal, ele dizia: ‘Não creiais, caríssimos, que eu não as ame com perfeição. (...) Dou-vos o exemplo para que, como eu faço, façais também vós. Não quero que alguém se ofereça espontaneamente para visitá-las, mas ordeno que sejam delegados aos serviços delas, contra a vontade e resistindo muito, tão somente homens espirituais, provados por digno e longo modo de vida.” (2Celano 205).


Tomás de Celano faz uma observação a respeito da pouca presença do seráfico pai em São Damião:
“Embora o pai pouco a pouco lhes subtraísse a sua presença corporal, no entanto, intensificou no Espírito Santo a disposição para cuidar delas.” (2Celano 204).


“Da parte de Clara o afeto e a amizade por Francisco parecem ter causado poucos problemas de consciência. Ela e suas irmãs exprimirão espontânea e frequentemente o desejo de ver e ouvir o Pai. Os frades, a começar pelo vigário, aprovam esse desejo (cf. 2Cel 207).” (Dic. Franciscano, Vozes, 1999, pág. 39).


Estando já bem próximo da morte de São Francisco, a bem –aventurada Clara “como estivesse muito enferma e temesse morrer antes que o bem-aventurado Francisco, chorava com alma amarga e não podia consolar-se, porque não podia ver antes de sua morte o seu único pai depois de Deus (...). E, por isso, comunicou por um irmão ao bem-aventurado Francisco. O bem-aventurado Francisco, ouvindo isto, como a amasse com paternal afeto – a ela e suas irmãs – pelo santo modo de vida delas, moveu-se de piedade (...).
Mas o bem-aventurado Francisco, considerando que o que ela desejava – a saber, vê-lo -, não podia acontecer naquela ocasião, porque ambos estavam gravemente enfermos, para consolá-la escreveu-lhe por carta a sua bênção (...). Dizendo ao mesmo irmão que ela enviara: ‘Vai e leva esta carta à senhora Clara e dir-lhe-ás que deixe de lado toda dor e tristeza, porque agora não pode ver-me; mas saiba em verdade que, antes de sua morte, tanto ela quanto suas irmãs me verão e terão de mim a maior consolação.” (Compilação de Assis 13).  






Há uma belíssima página da obra “I Fioretti” que retrata o amor fraternal que unia Francisco e Clara:



“São Francisco, quando estava em Assis, frequentes vezes visitava Santa Clara, dando-lhe santos ensinamentos. E tendo ela grandíssimo desejo de comer uma vez com ele, o que lhe pediu muitas vezes, ele nunca lhe quis dar esta consolação. Vendo os seus companheiros o desejo de Santa Clara, disseram a São Francisco: “Pai, a nós nos parece que este rigor não é conforme à caridade divina; que à irmã Clara, virgem tão santa, dileta de Deus, não atendas em coisa tão pequenina como é comer contigo; e especialmente considerando que ela por tua pregação abandonou as riquezas e as pompas do mundo. E deveras, se te pedisse graça maior do que esta, devias concedê-la à tua planta espiritual”. Então São Francisco respondeu: “Parece-vos que devo atende-la?” E os companheiros: “Sim, pai: digna coisa é que lhe dês esta consolação”. Disse então São Francisco: “Pois se vos parece, a mim também. Mas, para que ela fique mais consolada, quero que esta refeição se faça em Santa Maria dos Anjos; porque ela esteve longo tempo reclusa em São Damião: ser-lhe-á agradável ver o convento de Santa Maria onde foi tonsurada e feita esposa de Jesus Cristo; e ali comeremos juntos em nome de Deus.


Chegando o dia aprazado, Santa Clara saiu do mosteiro com uma companheira, e, acompanhada pelos companheiros de São Francisco, chegou a Santa Maria dos Anjos e saudou devotamente a Virgem Maria diante do altar onde fora tonsurada e velada; assim a conduziram a ver o convento até a hora do jantar. E nesse tempo São Francisco mandou pôr a mesa sobre a terra nua como de costume. E chegada a hora de jantar, sentaram-se São Francisco e Santa Clara, juntos, e um dos companheiros de São Francisco com a companheira de Santa Clara, e depois todos os companheiros de São Francisco se acomodaram humildemente à mesa.


Como primeira vianda São Francisco começou a falar de Deus tão suave, tão clara, tão maravilhosamente que, descendo sobre eles a abundância da graça divina, ficaram todos arrebatados em Deus. E estando assim arrebatados, com os olhos e as mãos levantados para o céu, os homens de Assis e de Betona e os da região circunvizinha viram que Santa Maria dos Anjos e todo o convento e a selva, que havia então ao lado do convento, ardiam inteiramente; e parecia que fosse um grande incêndio que ocupasse a igreja, o convento e a selva, ao mesmo tempo. Pelo que os assisienses com grande pressa correram para ali, crendo firmemente que tudo estava ardendo.


Mas, chegando ao convento e não encontrando nada queimado, entraram dentro e acharam São Francisco com Santa Clara e com toda a sua companhia arrebatados em Deus em contemplação e assentados ao redor desta humilde mesa. Pelo que compreenderam ter sido aquilo fogo divino e não material, o qual Deus tinha feito aparecer miraculosamente para demonstrar e significar o fogo do divino amor no qual ardiam as almas daqueles santos frades e santas monjas; de onde voltaram com grande consolação em seus corações e com santa edificação. (...)


E assim, terminado aquele bendito jantar, Santa Clara, bem acompanhada, voltou a São Damião. (...) As irmãs muito se alegraram quando a viram voltar; e Santa Clara ficou de ora em diante muito consolada. Em louvor de Cristo. Amém. (I Fioretti 15).





Paz e Bem!



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.

terça-feira, 3 de abril de 2012

 SÃO FRANCISCO E O TAU





O seráfico pai São Francisco tinha uma grande admiração e reverência para com o Tau. Todos os biógrafos do santo confirmam que, de fato, este era o seu sinal preferido.


O Frei Tomás de Celano, que conheceu de perto o seráfico pai e foi o primeiro a escrever a história deste santo, deixou-nos o seguinte testemunho:


“O sinal Tau era-lhe familiar acima de todos os outros; utilizava-o como única assinatura para suas cartas e pintava-o nas paredes de todas as celas” (3Celano 3,4).




São Boaventura, escrevendo sobre São Francisco algumas décadas após a morte do santo, confirma o que já tinha sido dito por Celano :


“Na verdade, o homem de Deus venerava este sinal com grande afeto, recomendava-o com frequentes admoestações, colocava-o no início de suas ações, subscrevia-o de próprio punho nas cartas que enviava por caridade, como se todo seu empenho fosse, de acordo com a palavra do profeta, ‘marcar com um Tau as frontes dos homens que gemem e sofrem’ (Ez 9,4), dos verdadeiros convertidos a Cristo Jesus” (Legenda Menor 2,9).


Na Basílica de São Francisco, em Assis, os visitantes podem ver ainda hoje o Tau que São Francisco desenhou no pergaminho enviado a Frei Leão.



Há um outro precioso documento que confirma o que foi dito pelos biógrafos: trata-se de uma cópia, feita entre 1229-1238, da Carta de São Francisco a todos os Clérigos, encontrada num antigo missal do Mosteiro Beneditino de Subiaco.  No final do documento o copista teve o cuidado de reproduziu inclusive o Tau com o qual o pai seráfico tinha assinado sua Carta.



Na visão de Frei Pacífico, São Francisco aparece  marcado pelo Tau:


“Frei Pacífico, homem de Deus, agraciado por visões celestes, viu com os olhos do seu corpo um grande Tau, com vários raios dourados, brilhando sobre a fronte do bem-aventurado pai” (3Celano 3,5).



Na obra “Tratado dos Milagres”, Tomás de Celano nos conta que um devoto de São Francisco ficou curado após ter sido tocado por um Tau que o santo trazia consigo. Este episódio, ocorrido após a morte do santo, confirma mais uma vez a devoção de São Francisco pelo Tau:


“Na cidade de Cori, na Diocese de Óstia, um homem perdera totalmente o movimento da perna, de modo que de maneira alguma podia andar e nem movimentar-se. Tomado de profunda angústia e desesperado de auxílio humano, certa noite começou, como se visse presente a São Francisco, a lamentar-se diante dele, em vista do seu estado. ‘Ajuda-me, São Francisco, recordando o favor e a devoção que prestei a ti. Pois te levei no meu burro; beijei teus pés e tuas santas mãos; fui sempre teu devoto e sempre benévolo; e eis que morro de dor, neste duríssimo sofrimento’. Comovido por esta imploração, subitamente o santo, junto com outro frade, apareceu ao homem vigilante. Disse que veio a seu chamado, trazendo os remédios para a sua saúde. Tocou o lugar da dor com pequena bengala, que tinha a figura do Tau. Subitamente rompeu-se o abcesso e, recuperada a saúde, até hoje o lugar ficou marcado com o sinal do Tau. Com este sinal São Francisco assinava suas cartas cada vez que, por necessidade ou por caridade, enviava algum escrito.” (3Celano 159).






“Que São Francisco tenha adotado o Tau como distintivo para si mesmo, isto se deve à própria forma desta letra: a maneira como grafamos o Tau tem semelhança com a representação da cruz. Aos olhos de Francisco nenhum símbolo era desprezível ou ridículo para lembrar seu bem-amado Cristo. Da mesma forma que respeitava o verme da terra e protegia os cordeirinhos, assim também venerava o Tau que evocava o amor do crucificado” (Dicionário Franciscano, Vozes, 2ª edição, 1999, pág. 724).




  
 Em Fonte Colombo, lugar onde São Francisco escreveu sua Regra, foi descoberta uma antiga pintura do Tau que, muito provavelmente, remonta a São Francisco. Este sinal, localizado numa das paredes da capelinha de Santa Madalena, estava encoberto por tinta do século XV.


Convento de Fonte Colombo: neste local São Francisco escreveu
a Regra da Ordem dos Frades Menores.


Capela de Santa Maria Madalena em Fonte Colombo:
aqui tem um pequeno Tau pintado na parede
atribuído a São Francisco.

Interior da Capela de Santa Madalena em Fonte Colombo:
perto da janelinha ao lado há um pequeno Tau pintado.

Tau pintado na parede da Capela de Santa Madalena.
Esta pequena pintura é atribuída a São Francisco.


 
Paz e Bem!



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.

sábado, 3 de março de 2012

O Tau: símbolo cristão





         Desde a antiguidade, o Tau foi incorporado ao simbolismo cristão. Ele foi divulgado e comentado amplamente por muitos Padres da Igreja.
Na devoção popular, muitos cristãos usavam o Tau com a intenção de serem preservados de muitos males como a peste e outros perigos e até mesmo das seduções diabólicas.  Muitos o traziam no peito ou inscrito em anéis; era desenhado em pergaminhos ou mesmo pintado nos portais das casas.




Há um antigo relato do século VI que confirma esse uso do Tau:

“Em 546, por ocasião de uma peste, o bispo de Clermont, na França, organizou uma solene procissão. O historiador Gregório de Tours (contemporâneo do acontecimento) diz que apareceu de repente nas paredes de todas as casas e de todas as igrejas ‘um sinal que os habitantes reconheceram ser o Tau’, e desta forma a epidemia cessou”. (Dicionário Franciscano, Vozes, 2ª edição, 1999, pág.725).





Na Idade Média também constatamos o uso do Tau pelos cristãos:

Em 1212, já na época de São Francisco, a Cruzada das Crianças escolheu o Tau como o seu distintivo.

Os Irmãos Hospitaleiros de Santo Antão, conhecidos como Antonianos, também tinham o Tau como distintivo. Eles o traziam costurado no hábito e no bastão que portavam podia-se ver este sinal esculpido. Eles cuidavam de um hospital de leprosos em Roma no qual São Francisco se hospedou por várias vezes (cf. Legenda Maior 3,9).




O IV Concílio de Latrão, realizado em 1215, foi aberto no dia 11 de novembro pelo papa Inocêncio III com um discurso que, na segunda parte, comentava o capítulo nove do profeta Ezequiel e enfatiza o significado do Tau para todos os cristãos:

“O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e tem a forma de uma cruz, como se apresentava a cruz antes de receber a inscrição de Pilatos. Aquele que traz em sua fronte o sinal do Tau manifesta em toda a sua conduta o esplendor da cruz; trazendo a cruz crucifica a carne com seus vícios e pecados; se traz o Tau afirma: de nada quero gloriar-me a não ser da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que foi marcado pelo Tau encontrará misericórdia, sinal de vida penitente e renovada em Cristo ... Sede, pois, campeões do Tau e da Cruz” (Dicionário Franciscano, Vozes, pág.725).




Este apelo do papa Inocêncio III por uma “cruzada” de conversão e de penitência foi dirigido a toda a cristandade e deve ter influenciado bastante a São Francisco de Assis.


PAX ET BONUM 


Frei Salvio Romero, eremita capuchinho

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Marcados pelo Tau






I Parte:



Origem bíblica desta devoção franciscana



Hoje em dia é bastante comum o uso do Tau. Muitas pessoas, especialmente os jovens, gostam de trazê-lo no peito mas talvez nem conheçam a origem, a história e o significado de tão belo símbolo.





O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a décima nona do alfabeto grego. A origem deste símbolo cristão encontra-se na Sagrada Escritura, precisamente no capítulo nove do livro de Ezequiel. Este profeta tem uma visão na qual a Cidade Santa está para ser destruída por causa dos abomináveis pecados do seu povo. O Senhor Deus se queixa ao profeta: “a terra está repleta de sangue e a cidade, repleta de perversão” (Ez 9,9b). Para salvar os justos do seu povo daquela terrível destruição, o Senhor envia um mensageiro para marcá-los com um sinal: “Percorre a cidade de Jerusalém e assinala com um Tau a testa dos homens que estão gemendo e chorando por causa de todas as abominações que se fazem no meio dela” (Ez 9,4). Em seguida, o Senhor envia outros mensageiros para que cumpram a sua ordem: “Percorrei a cidade atrás dele e feri. Não mostreis olhar de compaixão nem poupeis a ninguém. Velhos, moços, virgens, crianças, mulheres, vós os matareis até o extermínio. Mas não toqueis ninguém daqueles que trouxerem o Tau”.




Quando lemos esse texto do profeta Ezequiel em nossas traduções bíblicas, geralmente não encontramos a palavra “Tau”. Isto acontece porque ela vem traduzida por outros termos como “cruz” ou “marca”, mas no texto hebraico está, de fato, a palavra “Tau”.



O livro do Êxodo (Ex 12) nos oferece um relato que guarda várias semelhanças com o texto do profeta Ezequiel (Ez 9). Na noite da páscoa, quando os primogênitos do Egito foram exterminados, os filhos dos hebreus foram protegidos da morte graças a um sinal colocado nas portas: “O sangue passado nas casas em que estiverdes vos servirá de sinal. Vendo o sangue, passarei sobre vós. Não recebereis nenhum golpe destruidor, quando eu golpear a terra do Egito” (Ex 12,13). Assim, por este sinal, os primogênitos dos hebreus foram salvos. Mais tarde, os cristãos perceberam com maior profundidade esse texto, vendo nele uma prefiguração do sangue derramado por Cristo na cruz para salvar a humanidade.



O tema dos que foram salvos porque traziam consigo a “marca” ou o “selo” de Deus será retomado pelo livro do Apocalipse. No capítulo 7 deste livro fala-se dos 144 mil servos de Deus, marcados com o selo do Cordeiro, os quais foram livres do tormento. O anjo que trazia o selo do Deus vivo disse para os demais: “Não façais dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado com o selo a fronte dos servos do nosso Deus” (Ap 7,3). Observem que, mesmo não mencionando a palavra “Tau”, essa passagem do Apocalipse aponta para a mesma mensagem descrita na profecia de Ezequiel.




Dos textos sagrados relacionados acima podemos afirmar que o Tau é tanto um sinal de pertença a Deus quanto um sinal de salvação. O cristão que usa devotamente o Tau expressa através deste símbolo a sua pertença Àquele que o salvou com seu sangue redentor.  No tempo atual, como também no tempo do profeta Ezequiel, o Tau não perdeu o seu sentido. Pelo contrário, é urgente a sua mensagem e atualíssimo o seu sentido.



PAX ET BONUM



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.