segunda-feira, 5 de agosto de 2013


A prisão do jovem Francisco

 


 

Quando jovem, alguns anos antes de sua conversão, Francisco experimentou o terror da guerra e da prisão. Na guerra, ele deve ter presenciado a morte de muitos e, na prisão, deve ter sofrido os horrores do cárcere com seus companheiros de luta. Como um jovem da categoria de Francisco deve ter vivenciado tudo isso? Como todo esse sofrimento deve ter contribuído para mudar o sentido de sua vida?
 
 

 


 
 
O jovem Francisco ainda não sabia o que significava a dor e o sofrimento em sua vida. Segundo Raoul Manselli, grande estudioso do santo de Assis: “Comerciante jovem, mas esperto nos negócios, Francisco era amante do fausto e do luxo, dado a um estado de vida que o colocasse em destaque pela generosidade, pela largueza de bens, pela elegância, pela ‘cortesia’, com a aspiração ambiciosa a ser o primeiro, a estar sobre os outros: acreditava poder consegui-lo através de sua riqueza e do que esta lhe podia dar, olhando para um futuro de prosperidade e grandeza” (Raoul Manselli, São Francisco, Vozes, 1997, pág. 51-52).


Era o ano de 1202. O jovem Francisco estava com vinte anos. A cidade de Assis entra em sério conflito com Perúgia, cidade vizinha e mais poderosa. A guerra estava anunciada! Muitos cidadãos de Assis, incluindo o jovem Francisco, se preparam para a luta. Em Collestrada, um lugarejo entre as duas cidades, se deu o enfrentamento dos dois exércitos. O exército de Perúgia venceu, e muitos dos combatentes de Assis foram presos, inclusive Francisco.
 
 

 


 
 
O filho de Pedro Bernardone que nunca tinha sido privado de nada, agora está jogado numa terrível e humilhante prisão na cidade de Perúgia. Aquele que vivia alegremente em festas e banquetes com seus amigos, agora prova da amargura de um cárcere imundo e escuro. A Legenda dos Três Companheiros assim nos relata: “No tempo em que houve a guerra entre Perúgia e Assis, Francisco foi capturado com muitos concidadãos seus e encarcerado em Perúgia, mas porque era nobre de costumes, foi colocado como prisioneiro com os cavaleiros” (LTC 4,1). É interessante notar este último detalhe: o fato de ficar preso junto dos cavaleiros (nobres) demonstra a posição e o prestígio de Francisco, apesar de não pertencer a esta classe.


Tanto Tomás de Celano (2Cel 4) quanto a Legenda dos Três Companheiros (LTC 4) nos mostram que o jovem Francisco, mesmo na prisão, conservou seu jeito extrovertido de ser: “Num dia em que seus companheiros de prisão estavam tristes, ele, que naturalmente era sorridente e jovial, não parecia entristecer-se, mas de certo modo parecia alegrar-se. Por causa disso, um dos companheiros o repreendeu como a um louco, porque mesmo lançado no cárcere, se alegrava. Ao que Francisco respondeu com voz vigorosa: ‘Que pensas de mim? Ainda serei venerado por todo o mundo’” (LTC 4,2-4).
 

 


 
 
Havia entre os prisioneiros um cavaleiro que, por injuriar outro colega, foi isolado pelos demais. O biógrafo nos oferece uma pequena informação deste episódio que realça um dos traços da personalidade do jovem de Assis: “Somente Francisco não lhe nega companhia, mas exorta também os outros a fazerem o mesmo” (LTC 4,5).


Os estudiosos afirmam que foi neste período da prisão em Perúgia que Francisco adoeceu gravemente. “O primeiro e rude golpe na saúde do filho do mercador de Assis ocorreu na prisão de Perúgia, nos anos de 1202-1203. Por um ano inteiro ficou naquele calabouço escuro, frio e anti-higiênico. Foi resgatado porque adoeceu tão gravemente que morreria em breve” (Aldir Crocoli, São Francisco, Revisitando sua história, ESTEF, Porto Alegre, 2011, pág. 72).
 
 

 
monumento diante da Basílica de S. Francisco, em Assis,
representando o santo quando jovem.

 
 
Teria o jovem prisioneiro adoecido de que? Segundo alguns estudos, uma primeira hipótese aponta para a possibilidade de Francisco ter sido contaminado pela tuberculose, mas a hipótese mais aceita é a que ele tenha sido infectado pelo vírus da malária. Os sintomas descritos em outros momentos da vida do santo parecem confirmar esta segunda hipótese.


Esta dolorosa experiência do jovem Francisco foi um divisor de águas em sua vida. A prisão e a doença lhe forçaram a repensar a sua história. Tomás de Celano faz uma interpretação neste sentido: “Libertado da prisão, depois de pouco tempo, torna-se mais benigno com os necessitados. Decide daí por diante que não desviará seu rosto de pobre algum que, ao pedir-lhe, lhe propuser o amor de Deus” (2Cel 5,1-2).
 
 

 


 
 
A dor e o sofrimento, quando aceitos e acolhidos com sabedoria, podem se transformar em oportunidade de crescimento e de libertação. De fato, tinha razão o grande Santo Agostinho quando afirmava que Deus de um mal pode tirar um bem. Que a experiência do jovem rico de Assis possa iluminar os nossos passos especialmente quando trilharmos certos caminhos dolorosos e obscuros.
 
 

 

Paz e Bem

 

 
Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Formação franciscana


Os pais de São Francisco



Este monumento, representando os pais de São Francisco,
foi erguido na frente da igreja construída
sobre o possível local da casa paterna do santo.
 
 
As Fontes Franciscanas nos oferecem pouquíssimas informações sobre os pais de São Francisco. Os principais biógrafos, como Tomás de Celano e São Boaventura, após relatarem um pouco sobre a juventude de São Francisco e dos primeiros tempos de sua vocação e missão, nada mais falam sobre a sua família. Mesmo assim, é possível trazer à luz alguns dados importantes com o intuito de compreendermos melhor as origens do nosso pai seráfico.
 

Pedro Bernardone é o nome do pai de São Francisco. Este nome aparece nas biografias do santo como o opositor ferrenho das decisões de seu filho. Ele fez de tudo para que o seu primogênito não se desviasse do caminho traçado por ele. Provavelmente, Pedro Bernardone via em Francisco um sucessor que ocuparia em breve o seu lugar à frente dos negócios da família.
 
 
 

 
Tomás de Celano, São Boaventura e outros antigos biógrafos não mencionam o nome da mãe de São Francisco. O nome de Joana ou de Senhora Pica só são registrados nas biografias mais tardias, assim como a sua suposta origem francesa. Por outro lado, ela é descrita por todos como aquela que teve sensibilidade para compreender a vocação de seu filho, libertando-o da prisão doméstica imposta pelo pai.
 

Segundo o autor da Legenda dos Três Companheiros os pais de Francisco o amavam intensamente, e por esta mesma razão toleravam as atitudes extravagantes do filho quando ainda vivia na casa paterna: “Muitas vezes era repreendido pelos pais que lhe diziam que ele fazia tão grandes despesas consigo mesmo e com os outros que não parecia filho deles, mas de algum grande príncipe. Mas, porque seus pais eram ricos e o amavam com extrema ternura, toleravam-no em tais coisas, não querendo perturbá-lo” (LTC 2,4-5).
 
 
 

 
Pedro Bernardone era um rico comerciante de tecidos de luxo. Ele possuía, inclusive, uma loja de tecidos importados na qual o jovem Francisco deve ter trabalhado. Isso significa que ele pertencia ao nível mais elevado da classe mercantil de Assis. Documentos do século XIII comprovam que ele possuía também muitas casas na cidade e que seus descendestes continuaram a gozar da riqueza herdada do velho patriarca da família. O pai viajava com frequência à França para comprar tecidos finos os quais eram revendidos por preços compensadores. Ele era não só possuidor de muitos bens, mas um amante apaixonado pelo dinheiro e por toda a sua riqueza.
 

Assis, no tempo de São Francisco, passava por um processo de emancipação política diante do poder centralizador dos senhores nobres. Essa reviravolta social era promovida pelos burgueses (comerciantes e artesãos) que reivindicavam naquele momento uma participação efetiva e plena nas decisões político-econômicas da cidade. O pai de São Francisco, sendo ele um rico comerciante, juntamente com seus pares devia ter seus interesses a defender neste processo político-social típico de sua época. As cidades que se reorganizavam a partir dos interesses dos burgueses (denominadas de “Comunas”) estabeleciam um modo mais democrático de exercer o poder político.
 
 
 

 
Nas comunas italianas os ricos comerciantes ostentavam um padrão de vida igual ou superior ao da nobreza. Não é de estranhar que Francisco cultivasse sonhos de se tornar um cavaleiro, honraria típica de quem pertencia à nobreza.
 

Todo comerciante do nível de Pedro Bernardone devia saber pelo menos ler, escrever, fazer contas e utilizar o latim num nível elementar. Com muita probabilidade, esta deve ter sido a educação formal que Francisco, quando criança ou adolescente, recebeu durante seus estudos na igreja de São Jorge. De fato, muitos estudiosos, analisando alguns escritos do santo, afirmam que o grau de instrução de São Francisco era aquele que se esperava de um comerciante de sua categoria.
 
 
Antiga fortaleza construída na parte mais alta de Assis.
 

Outro fato curioso é que as biografias concordam em atribuir a Francisco o uso da língua francesa principalmente em momentos de entusiasmo e fervor. Este conhecimento do francês por parte de Francisco deve-se provavelmente ao pai que, tendo em vista os negócios com a França, transmitiu ao filho o conhecimento que tinha desta língua.

 
Esta igreja foi erguida em Assis sobre o provável local
da casa dos pais de São Francisco. 

 
 
(Para aprofundamento deste assunto: Raoul Manselli, São Francisco, Vozes e FFB, 1997, Petrópolis).

 

 
Paz e Bem



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho

 

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Carta para

Santo Antonio



 

Neste mês de junho, queremos apresentar aos estimados leitores uma pequena carta que o bem-aventurado pai São Francisco escreveu para Santo Antônio. O assunto abordado, como será visto mais adiante, se refere à questão dos estudos teológicos para os frades da Ordem dos Menores (franciscanos).

 


 
Antes de apresentar a carta, é interessante situar um pouco a presença de Santo Antonio na Ordem Franciscana. Ainda recente na Ordem, ele esteve presente no Capítulo Geral de Assis, em 1221, e foi nesta ocasião que ele viu São Francisco pela primeira vez. Tendo entrado na Ordem provavelmente no ano anterior, ele estava vindo do Marrocos (norte da África) onde, por motivos de doença, não tinha conseguido pregar o Evangelho ao povo daquela região como era o seu desejo. No seu retorno a Portugal, a sua embarcação foi parar na Sicília (sul da Itália) por causa de uma forte tempestade. Ali, após sua recuperação, tomou o rumo de Assis para onde estavam se dirigindo os frades convocados para o Capítulo Geral.

 


 
Ao término do Capítulo Geral, atendendo ao convite de um ministro provincial, Santo Antônio foi morar no norte da Itália. Nesta época ele ainda não tinha sido reconhecido pelo seu profundo conhecimento da Teologia e da Sagrada Escritura em particular, adquirido no tempo de sua formação de cônego agostiniano. Descoberto não muito tempo depois pelos seus irmãos de hábito como ilustre pregador, ele começou a pregar o Evangelho como missionário itinerante, permanecendo neste serviço até a sua morte em 1231, com apenas 36 anos de idade.

 
Santo Antônio pregando aos peixes.

Com o acelerado crescimento da Ordem Franciscana, era cada vez mais urgente e necessária uma melhor preparação dos frades, especialmente daqueles que se destinavam à pregação do Evangelho. Santo Antonio, portanto, foi encarregado de ensinar Teologia aos seus confrades. Certamente é neste contexto que devemos situar a famosa carta que o seráfico pai escreveu para Santo Antonio:



 

“Eu, Frei Francisco,
desejo saúde a Frei Antonio, meu bispo.
Apraz-me que ensines a sagrada Teologia aos irmãos,
 contanto que, nesse estudo,
não extingas o espírito de oração e devoção,
como está escrito na Regra.”
 

 


 
 
Nós temos conhecimento desta pequenina carta graças aos vários pergaminhos medievais que trazem o registro deste precioso documento e também às antigas biografias de Santo Antonio que nos transmitiram a referida carta.
 

 


 
 
Em que momento da vida teria São Francisco enviado este documento? Os estudiosos costumam defender que esta pequenina carta deve ter sido escrita depois de 1223 porque veem nela uma referência à Regra Bulada aprovada naquele ano. Eles também defendem que esta carta não deve ser posterior a 1225 porque por esta época Santo Antonio tinha ido morar em terras francesas, voltando à Itália somente depois da morte de São Francisco. Portanto, seria bem provável que o pai seráfico tivesse dado esse escrito a Santo Antonio antes de sua partida para a França.
 

 
A Virgem com São Domingos e Santo Antônio.

 
Considerando esta carta, podemos afirmar que São Francisco não era contra os estudos da Teologia, pelo contrário, ele defendeu uma harmonia entre a vida intelectual e a vida espiritual. O ensinamento encontrado nesta carta está em perfeita sintonia com o pensamento do santo encontrado em outros escritos. Observemos o que ele nos ensina, por exemplo, numa de suas Admoestações:
 

 



 
“Diz o Apóstolo: A letra mata, o espírito, porém, vivifica (2Cor 3,6). São mortos pela letra aqueles que somente desejam conhecer as palavras para serem considerados mais sábios entre os outros e poderem adquirir grandes riquezas, para dá-las aos parentes e amigos. São também mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito da divina escritura, mas apenas desejam conhecer as palavras e interpretá-las aos outros” (Admoestações 7, 1-3).
 

 


 
Queiramos nós também aprender com o Pobrezinho de Assis a estudar a Sagrada Teologia sem jamais perder o espírito da oração e devoção. Portanto, cresçamos no conhecimento das coisas referentes a Deus para amá-lo ainda mais! E amando-o, desejemos conhecê-lo mais e mais.

 
Paz e Bem

 

 

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.

 

 

 

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013


Conformidade de São Francisco com Jesus
 
 

Podemos afirmar que São Francisco foi o santo que mais se assemelhou a Jesus. De fato, era tão grande o amor do seráfico pai pelo Cristo e seu Evangelho que ele procurou em tudo assemelhar-se ao Mestre, desde as pequenas coisas até às mais exigentes, e por esta mesma razão foi aclamado como o “Alter Christus”, isto é, o “Outro Cristo”.
 
 

Conformar-se a Cristo não é simplesmente uma imitação superficial, ela é antes de tudo uma ação do Espírito Santo no coração de quem se deixa modelar por este Sopro Criador. Esta conformidade a Cristo corresponde àquela vocação mais profunda da criatura humana que atinge sua plena maturidade quando chega a afirmar com o Apóstolo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Certamente é deste mistério que fala o Apóstolo Paulo quando se refere àqueles que Deus “predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8,29).
 
 
 
 
 
 
 

 São Francisco viveu num período da história cristã no qual ardia um forte desejo de renovação espiritual e de retorno à simplicidade do Evangelho. Para Tomás de Celano o santo de Assis encarnou todos esses anseios que estavam no coração de muitos: “Nos últimos tempos, o novo evangelista, como um dos rios do paraíso, difundiu em todo o orbe da terra com piedosa irrigação as águas correntes do Evangelho e pregou com obras o caminho do Filho de Deus e a doutrina da verdade” (1Celano 89,4).
 
 
 
 



Desde os primeiros tempos, os biógrafos do santo perceberam claramente esta singular conformidade com o Cristo. Tomás de Celano recorda qual era o principal desejo do santo: “A mais sublime vontade, o principal desejo e supremo propósito dele era observar em tudo e por tudo o santo Evangelho, seguir perfeitamente a doutrina e imitar e seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a vigilância, com todo o empenho, com todo o desejo da mente e com todo fervor do coração” (1Celano 84,1).
 
 
 
 
 



         Este mesmo biógrafo nos descreve a visão que um frade teve após a morte de São Francisco, e que ilustra muito bem esta conformidade à qual estamos nos referindo: “Apareceu o glorioso pai, vestido de dalmática de cor púrpura, a quem seguia incontável multidão de homens. Destacando-se muitos da multidão, disseram ao irmão: ‘Ó irmão, por acaso não é este o Cristo?’ E ele dizia: ‘É ele mesmo’. E outros perguntavam por sua vez, dizendo: ‘Por acaso não é este São Francisco?’ O irmão respondia igualmente que era. Na verdade, parecia ao irmão e à multidão de todos que o acompanhavam que a pessoa de Cristo e do bem-aventurado Francisco era uma só. Isto não é de modo algum considerado temerário pelos que compreendem sabiamente, pois quem se une a Deus se torna um espírito com ele, e o próprio Deus há ser tudo em todos” (2Celano 219,25).
 
 
 
 



O tema da conformidade de São Francisco com o Cristo, abordado magistralmente por São Boaventura, ultrapassou os séculos e permanece sempre atual. Numa de suas encíclicas, escreve o papa Pio XI: “Parece que se pode afirmar não haver nunca existido alguém que tivesse brilhado de maneira mais viva e mais semelhante à imagem de Jesus Cristo e à forma evangélica de vida do que São Francisco” (Encíclica Rite expiatis, 03 de abril de 1926). Na nova Regra da Ordem Franciscana Secular, aprovada pelo papa Paulo VI, em 1978, a conformidade com o Cristo é apresentada como elemento fundamental de espiritualidade: “Conformai vosso modo de pensar e de agir a Cristo, mediante uma radical mudança interior que o próprio Evangelho designa com o nome de conversão” (Regra da OFS 2,7).
 
 
 
 



Conformar-se a Cristo, portanto, é o chamado fundamental dirigido a cada um de nós. Não há verdadeira vida cristã sem essa identificação profunda do fiel com o Cristo Jesus. Deixemo-nos, então, conduzir pelo Espírito divino para que ele opere em nós esta sublime conformidade.


 
 
 
 

 Paz e Bem
 

 
 
 
Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.