domingo, 1 de maio de 2011


OITAVO CENTENÁRIO DA CONSAGRAÇÃO DE SANTA CLARA E DO NASCIMENTO DE SUA ORDEM


No dia 17 de abril deste ano, Domingo de Ramos, a Família Franciscana abriu oficialmente o oitavo centenário da consagração de Santa Clara e do nascimento de sua Ordem. Todos os grupos que compõem esta grande família (Ordens, Congregações, Institutos, etc.) estão em festivo jubileu até o dia 11 de agosto do próximo ano quando, por ocasião da festa de Santa Clara, haverá o encerramento solene.


O evento da consagração de Clara de Assis marca o nascimento da II Ordem franciscana, denominada de Ordem de Santa Clara, composta de irmãs contemplativas as quais são também chamadas de “clarissas”. Elas vivem em mosteiros e se dedicam prioritariamente à oração. Segundo o site oficial desta Ordem no Brasil, existem atualmente por volta de vinte mil clarissas no mundo, distribuídas em 986 mosteiros. No Brasil, a Ordem das clarissas tem crescido bastante; já contamos com 25 mosteiros espalhados por diversas regiões do país.



No decorrer dos séculos, a Ordem de Santa Clara se ramificou em diversos grupos de acordo com a Regra e as Constituições adotadas. Atualmente, existem nove grupos distintos: Clarissas, Clarissas Urbanistas, Clarissas Coletinas, Clarissas Capuchinhas, Clarissas Sacramentinas, Clarissas da Adoração Perpétua, Clarissas Capuchinhas Sacramentinas e Clarissas da Divina Providência.


 Quando São Francisco deixou a casa paterna, em 1206, para se tornar um penitente itinerante, a menina Clara tinha apenas doze anos de idade, enquanto ele já contava com vinte e quatro anos. Imaginemos como o episódio de um jovem muito rico abandonando tudo para seguir o Cristo num modo de vida pobre e desprezível tenha abalado a pequena cidade medieval de Assis. Não deve ter havido uma só família que não tenha comentado a “lamentável história”. O que terá se passado no coração da jovenzinha Clara? Como será que ela entendeu a atitude daquele jovem burguês? Se ela ainda não tinha ouvido falar de Francisco, passou certamente a conhecê-lo a partir desta data.


A Legenda de Santa Clara (“biografia” oficial escrita provavelmente por ocasião da canonização da santa em 1255) nos informa como ela e Francisco tiveram seus primeiros encontros:

“Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo (...)

Ele, conhecendo a fama de tão agraciada donzela, não tinha menor desejo de ver e falar com ela (...). Ele a visitou, e ela o fez mais vezes ainda, moderando a freqüência dos encontros para evitar que aquela busca divina fosse notada pelas pessoas e mal interpretada por boatos.


A moça saía de casa, levando uma só companheira, e freqüentava os encontros secretos com o homem de Deus (...)
 O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora” (Legenda de Santa Clara 5).



Clara estava destinada ao casamento, segundo nos informam duas testemunhas no processo de sua canonização:

 “A testemunha conheceu a referida dona Clara quando era criança na casa de seu pai. (...) Sendo ela bonita de rosto, tratava-se de dar-lhe marido. Por isso, muitos de seus parentes lhe pediam que consentisse em casar-se. Mas ela nunca quis saber. Ele mesmo, testemunha, tinha pedido muitas vezes que ela concordasse em casar-se, mas ela não queria nem ouvir. Antes, era ela quem lhe pregava sobre o desprezo do mundo” (Proc. De Canonização 18,1-2).

“Tinha visto como seu pai, mãe e parentes queriam casá-la segundo a sua nobreza, magnificamente, com homens grandes e poderosos. Mas a jovem, que podia ter uns dezessete anos, não pôde ser convencida de modo algum, porque quis permanecer na virgindade e viver em pobreza, como depois demonstrou, pois vendeu toda a sua herança e a deu aos pobres” (Proc. De Canonização 19,2).



O que é certo é que Clara, pertencente a uma nobre família de cavaleiros, foi tocada pelo mesmo ideal do jovem Francisco. O Espírito Santo suscitou na alma dela um desejo de se consagrar inteiramente a Jesus, seguindo-o bem de perto numa vida de extrema pobreza evangélica. O Cristo que Clara descobriu no Evangelho era “Pobre e Humilde” e se fizera o menor de todos para nos salvar. Em Francisco, ela viu brilhar esse modo de vida com intensidade tão forte que ela mesma quis se tornar a sua “plantinha” como costumava dizer.


Vejamos, agora, como se deu a consagração da jovem Clara no ano de 1211 ou, segundo outros estudiosos, no ano de 1212:

“Aproximava-se a solenidade de Ramos, quando a jovem, de fervoroso coração, foi ter com o homem de Deus, para saber o que e como devia fazer para mudar de vida. Ordenou-lhe o pai Francisco que, no dia da festa, bem vestida e elegante, fosse receber a palma no meio da multidão e que, de noite, ‘deixando o acampamento’ (cf. Hb13,13), trocasse o gozo mundano pelo luto da paixão do Senhor.

Quando chegou o domingo, a jovem entrou na igreja com os outros, brilhando em festa no grupo das senhoras. Aconteceu um oportuno presságio: os outros se apressaram a ir pegar os ramos, mas Clara ficou parada em seu lugar por recato, e o pontífice desceu os degraus, aproximou-se dela e colocou-lhe a palma nas mãos.


De noite, dispondo-se a cumprir a ordem do santo, empreendeu a ansiada fuga em discreta companhia. Não querendo sair pela porta habitual, com as próprias mãos abriu outra, obstruída por pesados troncos e pedras, com uma força que lhe pareceu extraordinária.


E assim, abandonando o lar, a cidade e os familiares, correu a Santa Maria da Porciúncula, onde os frades, que diante do altar de Deus faziam uma santa vigília, receberam com tochas acesas a virgem Clara. (...) Com os cabelos cortados pela mão dos frades, abandonou seus ornatos variados. (...)



Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem, São Francisco levou-a logo para a igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa” (Legenda de Santa Clara 7-8).


Altar da Prociúncula diante do qual Clara se consagrou ao Senhor.


Como foi a reação de sua família?

“Mal voou a seus familiares a notícia, e eles, com o coração dilacerado, reprovaram a ação e os projetos da moça. Juntaram-se e correram ao lugar para tentar conseguir o impossível. Recorreram à violência impetuosa, ao veneno dos conselhos, ao agrado das promessas, querendo convencê-la a sair dessa baixeza, indigna de sua linhagem e sem precedentes na região.
Mas ela segurou as toalhas do altar e mostrou a cabeça tonsurada, garantindo que jamais poderiam afastá-la do serviço de Cristo. A coragem cresceu com o combate dos parentes, e o amor ferido pelas injúrias deu-lhe forças. Seu ânimo não esmoreceu, nem seu fervor esfriou, mesmo sofrendo obstáculos por muitos dias no caminho do Senhor e com a oposição dos familiares a seu propósito de santidade. Entre insultos e ódios, temperou sua decisão na esperança, até que os parentes, derrotados, se acalmaram” (Legenda de Santa Clara 9).


Observem o que nos diz um perito no assunto:

“Clara não era uma jovem que estava sendo encaminhada pelos pais à vida monástica. Era uma moça que tinha fugido de casa, indo ao encontro do desprezo e da desaprovação de todos. Francisco não era bispo – a quem normalmente era reservada a consagração das virgens - e nem mesmo sacerdote. E, apesar disto, se arrogou o direito, como um simples leigo, de consagrar Clara ao Senhor. (...)

A opção de Clara foi um escândalo. Na realidade, muitas jovens de nascimento nobre como Clara haviam deixado o mundo, retirando-se para mosteiros beneditinos, exatamente como aquele no qual seus parentes foram buscá-la. Por que então a escolha feita por Clara parecera tão escandalosa? (...)


Clara, depois de ter sido consagrada ao Senhor na igrejinha de Santa Maria da Porciúncula, foi conduzida por alguns companheiros de Francisco ao mosteiro de São Paulo das Abadessas. Tratava-se do mais importante e mais rico mosteiro da região. Clara ali se apresentou como uma pobre. Não trazia consigo um dote, como costumava fazer as jovens da aristocracia que escolhiam (mais ou menos de bom grado) a vida monástica.


Clara vendeu seus bens, distribuiu o resultado entre os pobres e, somente depois, apresentou-se no mosteiro.
É provável que Clara, segundo o costume da época, tivesse recebido seu dote antes de fugir da casa paterna (...) Ela resolveu não servir-se de tal dote para procurar um bom casamento que lhe teria dado segurança para sempre e reforçado a posição da família. Clara, no entanto, alienou-o e distribuiu seu resultado aos pobres” (BARTOLI, Marco. Clara de Assis, Vozes, FFB, 1998, pg. 60-62).


Vejam o que nos informa a Irmã Beatriz no Processo de Canonização de Santa Clara, sua irmã de sangue:

Clara “vendeu toda a sua herança e parte da herança da testemunha e deu-a aos pobres. E, depois, São Francisco cortou seu cabelo diante do altar, na igreja da Virgem Maria, chamada Porciúncula” (Proc. De Canonização 12,3-4).

São Francisco, após a consagração de Clara na Porciúncula, levou-a para o mosteiro beneditino de São Paulo que ficava cerca de 4 km de Assis. Pouco tempo depois ela se transfere para uma outra comunidade de religiosas que ficava mais próxima de Assis: Santo Ângelo de Panzo.
Quando Clara estava ainda em Santo Ângelo, sua irmã Inês resolve juntar-se a ela:

“Dezesseis dias depois da conversão de Clara, Inês, levada pelo Espírito divino, correu para a irmã e, contando seu segredo, disse que queria servir só ao Senhor. (...)
Quando as felizes irmãs estavam na igreja de Santo Ângelo de Panzo, aplicadas em seguir as pegadas de Cristo, (...) de repente levantaram-se contra as jovens novos ataques dos familiares. Sabendo que Inês tinha ido para junto de Clara, correram no dia seguinte ao lugar doze homens acesos de fúria e, dissimulando a malvadeza por fora, apresentaram-se para uma visita de paz.
Logo, voltando-se para Inês, pois de Clara já antes tinham perdido a esperança, disseram: ‘Por que veio a este lugar? Volte quanto antes para casa conosco’. Quando ela respondeu que não queria separar-se de sua irmã Clara, lançou-se sobre ela um cavaleiro enfurecido e, a socos e pontapés, queria arrastá-la pelos cabelos, enquanto os outros a empurravam e levantavam nos braços. Diante disso, a jovem, vendo-se arrancada das mãos do Senhor, como presa de leões, gritou: ‘Ajude-me, irmã querida, não deixe que me separem de Cristo Senhor’.
Os violentos atacantes arrastaram a jovem renitente pela ladeira, rasgando a roupa e enchendo o caminho de cabelos arrancados. Clara prostrou-se numa oração em lágrimas, pedindo que a irmã mantivesse a constância e suplicando que a força daqueles homens fosse superada pelo poder de Deus.
De repente, o corpo dela, caído por terra, pareceu fincar-se com tanto peso que, mesmo diversos homens, juntando as forças, não conseguiram de modo algum levá-lo para além de um riacho. (...)
Então, depois de longa batalha, Clara foi até lá, pediu aos parentes que desistissem da luta e deixassem a seus cuidados Inês, que jazia meio morta. Quando eles se retiraram, amargados pelo fracasso da empresa, Inês levantou-se jubilosa e, já gozando da cruz de Cristo, por quem travara essa primeira batalha, consagrou-se para sempre ao serviço divino. Então o bem-aventurado Francisco a tonsurou com suas próprias mãos e, junto com sua irmã, instruiu-a nos caminhos do Senhor” (Legenda de Santa Clara 24-26).


Após uma breve permanência em Santo Ângelo, Francisco conduz Clara e Inês para a ermida de São Damião:

Mosteiro de São Damião
“Poucos dias depois, foi para a igreja de Santo Ângelo de Panzo, mas, não encontrando nesse lugar plena paz, mudou-se finalmente para a igreja de São Damião, a conselho do bem-aventurado Francisco. Aí, cravando já no seguro a âncora do espírito, não flutuou mais por mudanças de lugar, não vacilou diante do aperto, nem teve medo da solidão. (...)

A Virgem Clara fechou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste. Abrigando-se da tempestade do mundo, encarcerou seu corpo por toda a vida (...) gerou uma fileira de virgens de Cristo, instituiu um santo mosteiro e deu início à Ordem das senhoras pobres.

(...) Nesse apertado recinto, por quarenta e dois anos, quebrou o alabastro do corpo com os açoites da disciplina, enchendo a casa da Igreja com o aroma dos perfumes.


(...) Pouco depois, já se espalhava a fama de santidade da virgem Clara pelas regiões vizinhas, e ao odor de seus perfumes correram mulheres de toda parte.

(...) Mesmo encerrada, Clara começou a clarear todo o mundo e refulgiu preclara pelos motivos de louvor.



A fama de suas virtudes invadiu as salas das senhoras ilustres, chegou aos palácios das duquesas e penetrou até nos aposentos das rainhas. (...)

Numerosas cidades ganharam mosteiros, e mesmo campos e montanhas ficaram bonitos com a construção desses celestes edifícios” (Legenda de Santa Clara 10-11).




PAX ET BONUM!

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.
        

sexta-feira, 1 de abril de 2011



SÃO FRANCISCO E AS CRIATURAS








 

Em 1979, São Francisco de Assis foi declarado “Patrono celeste dos cultores da ecologia” pelo papa João Paulo II. Com uma profunda humildade, este santo se fez o irmão menor de todas as criaturas, não querendo dominá-las e nem possuí-las. Ele amou livremente a cada uma delas sem nenhum apego egoísta.


A natureza para São Francisco é um reflexo luminoso do Criador. Nas criaturas, ele contemplava justamente aqueles traços deixados pelo Autor na sua obra. O Santo de Assis nos ensina a enxergar em cada ser criado os raios daquela Beleza incomparável e a doçura daquela Bondade eterna que é Deus. A criação nunca foi entendida por ele como um obstáculo para a comunhão com Deus, mas como uma escada que aponta para o Mistério divino.





A seguir proponho a leitura de alguns textos das Fontes Franciscanas que nos ajudarão a compreender melhor a alma do Pobrezinho de Assis no que se refere ao seu amor para com as criaturas: 



“Totalmente absorto no amor de Deus, São Francisco vislumbrava perfeitamente a bondade de Deus não só na sua alma, já ornada com toda a perfeição das virtudes, mas também em qualquer outra criatura. Por isso, dedicava especial e entranhado amor às criaturas, sobretudo àquelas nas quais via algo referente a Deus ou à religião”  (Espelho da Perfeição 113,1-2).




São Francisco “reconhece nas coisas belas aquele que é o mais Belo; todas as coisas boas lhe clamam: ‘Quem nos fez é o Melhor’. Por meio dos vestígios impressos nas coisas ele segue o Amado por toda parte e de todas as coisas faz para si uma escada para se chegar ao trono dele.





Abraça todas as coisas com o afeto de inaudita devoção, falando com elas sobre o Senhor e exortando-as a louvá-lo. Poupa os candeeiros, lâmpadas e velas, não querendo com sua mão extinguir o fulgor que era sinal da luz eterna.







Recolhe do caminho os vermezinhos, para que não sejam pisados, e manda que sejam servidos mel e ótimos vinhos às abelhas, para que não morram por falta de alimento no rigoroso frio do inverno. Chama com o nome de irmão todos os animais, conquanto entre todas as espécies de animais prefira os mansos” (2 Celano 165).




“Enchia-se muitas vezes de admirável e inefável alegria, quando olhava o sol, quando via a lua, quando contemplava as estrelas e o firmamento. Ó piedade simples, ó simplicidade piedosa!” (1 Celano 80).



“Quanta alegria julgas que a beleza das flores lhe trazia à mente, quando ele via a delicadeza da forma e sentia o suave perfume delas? (...) E quando encontrava grande quantidade de flores, de tal modo lhes pregava e as convidava ao louvor do Senhor, como se elas fossem dotadas de razão. Assim também, com sinceríssima pureza, admoestava ao amor divino e exortava a generoso louvor os trigais e vinhas, pedras e bosques e todas as coisas belas dos campos, as nascentes das fontes e todo o verde dos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento. (...) Percebia com agudeza as coisas ocultas do coração das criaturas, como quem já tivesse alcançado a liberdade gloriosa dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21)” (1 Celano 81).










“Entre todas as aves, amava especialmente uma avezinha chamada cotovia, vulgarmente chamada de cotovia de capuz. Dela dizia: ‘A irmã cotovia tem um capuz como os religiosos e é uma ave humilde, porque de bom grado anda pelo caminho à procura de algum grão e, mesmo que o encontre no esterco, o retira e o come. Voando, louva o Senhor muito suavemente, como os bons religiosos que desprezam as coisas terrenas, cuja morada está sempre nos céus e a intenção é sempre o louvor de Deus. Sua veste, isto é, suas penas, assemelha-se à terra e dá exemplo aos religiosos, que não devem ter vestes delicadas e coloridas, mas de baixo preço e cor como a terra, que é mais humilde que outros elementos’.






E porque nelas considerava tudo isso, tinha o máximo prazer em vê-las. Por isso aprouve ao Senhor que as próprias avezinhas dessem um sinal de seu amor por ele na hora de sua morte. No sábado à tarde, depois das Vésperas, antes da noite em que migrou para o Senhor, grande multidão destas aves, chamadas cotovias, reuniu-se sobre o telhado da casa em que ele jazia e, voando um pouco, faziam um círculo ao redor do telhado e, cantando docemente, pareciam louvar o Senhor” (Espelho da Perfeição 113,3-9).







“Depois do fogo, amava particularmente a água, porque ela simboliza a penitência e a tribulação, pelas quais se lava a miséria da alma e porque a primeira purificação da alma é feita pela água do batismo. Por isso, quando lavava suas mãos, escolhia um lugar tal que a água que caía por terra não fosse calcada pelos pés. Até quando era preciso caminhar sobre as pedras, andava com grande temor e reverência, por amor daquele que é chamado de pedra. (...)





Também ao irmão que cortava e preparava a lenha para o fogo, recomendava que nunca derrubasse toda a árvore, mas que cortasse tais árvores de forma a sempre deixar íntegra alguma parte dela, por amor daquele que quis realizar a nossa salvação no lenho da cruz.






Igualmente recomendava ao frade que trabalhava na horta que não cultivasse toda a terra somente com ervas comestíveis, mas deixasse livre alguma parte da terra, para que produzisse ervas verdejantes que, a seu tempo, produzissem flores aos irmãos, por amor daquele que é chamado de flor dos campos e lírio dos vales (cf. Ct 2,1).





E até dizia que o frade hortelão devia fazer sempre um belo canteiro em alguma parte da horta, pondo e plantando ali todas as ervas odoríferas e todas as ervas que produzem belas flores, para que, a seu tempo, convidassem a louvar a Deus todos aqueles que vissem aquelas ervas e aquelas flores. Pois toda criatura diz e clama: ‘Deus me fez para ti, ó homem’.








Por isso, nós que vivemos com ele vimos que ele tanto se alegrava interior e exteriormente com quase todas as criaturas que, tocando-as ou vendo-as, parecia que seu espírito não estava na terra, mas no céu. E, por causa das muitas consolações que recebeu e recebia das criaturas, pouco antes de sua morte, compôs e fez alguns Louvores do Senhor por suas criaturas, para estimular ao louvor de Deus os corações dos ouvintes e para que o próprio Deus fosse louvado pelos homens nas suas criaturas” (Espelho de Perfeição 118).



São Francisco “transbordava em espírito de caridade, tendo entranhas de compaixão não só para com os homens que sofriam necessidade, mas também para com os animais privados de fala e de razão, répteis, pássaros e demais criaturas sensíveis e insensíveis. Mas entre todas as espécies de animais, amava com especial afeição e mais pronto afeto os cordeirinhos, pelo fato de que a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo nas Sagradas Escrituras é frequentemente comparada e mais convenientemente adaptada ao cordeiro. Assim também, abraçava mais carinhosamente e via mais prazerosamente todos aqueles animais nos quais principalmente pudesse ser encontrada alguma semelhança alegórica com o Filho de Deus” (1 Celano 77).




                               PAX ET BONUM 

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.


terça-feira, 1 de março de 2011



AS QUARESMAS DE SÃO FRANCISCO









O termo “QUARESMA”, usado desde a antiguidade cristã, indica o período de quarenta dias que antecede imediatamente a celebração anual dos Santos Mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.


No primeiro dia da quaresma, o fiel recebe as cinzas enquanto ouve o apelo de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
Por que a Liturgia da Igreja estabeleceu quarenta dias de preparação para a Santa Páscoa do Senhor? A razão desse número nós a encontramos na Sagrada Escritura:



# Gn 7,17: “Durante quarenta dias houve o dilúvio sobre a terra”.

# Ex 17,35: “Os filhos de Israel comeram maná durante quarenta anos, até chegarem à terra habitada”.

# Ex 24,18b: “E Moisés permaneceu na montanha quarenta dias e quarenta noites”.

 # 1Rs 19, 8: Elias “ levantou-se, comeu e bebeu e, depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb”.

# Jn 3,4-5: “Jonas entrou na cidade e a percorreu durante um dia. Pregou então, dizendo: ‘Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída’. Os homens de Nínive creram em Deus, convocaram um jejum e vestiram-se de saco, desde o maior até o menor”.

# Mt 4,1-2: “Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome”.



 O bem-aventurado Francisco, querendo em tudo conformar-se a Cristo, costumava preparar bem a sua alma para reviver os grandes Mistérios do Senhor que a Igreja celebra ao longo do ano em sua Divina Liturgia. Ele não se limitava a viver a “grande quaresma” em preparação à santa Páscoa. Antes de outras grandes solenidades, ele se recolhia nos eremitérios e se entregava por quarenta dias aos jejuns, orações e outras penitências. Os antigos documentos da Ordem atestam que o seráfico pai fazia cinco quaresmas por ano.



1 – A “Grande Quaresma”



Em união com toda a Santa Igreja, São Francisco se preparava com o maior empenho para celebrar anualmente a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.  Era para ele a quaresma das quaresmas! Ficou famosa aquela quaresma que, para imitar a Cristo no deserto, o santo se retirou numa ilha:



“Estando no território de Perúgia, perto do lago, fora hospedado em dia de carnaval em casa de um homem que lhe era devoto. São Francisco pediu-lhe por amor de Cristo que ele o transportasse a uma ilha do mesmo lago - na qual nenhum homem habitava –, a saber, na noite antes do dia das Cinzas, de tal modo que ninguém o percebesse. Aquele hospedeiro, por causa da grande devoção que tinha para com ele, realizou isto com mais diligência ainda; por isso levantou-se de noite, preparou o barco e no dia das Cinzas levou São Francisco à mencionada ilha. E São Francisco nada levou como alimento, a não ser dois pãezinhos.
Desembarcados na mencionada ilha, ele pediu a seu barqueiro que não revelasse isto a ninguém e que somente o buscasse de volta na Quinta-feira Santa. Tendo-se retirado da ilha o seu barqueiro, São Francisco permaneceu só; e já que aí não havia nenhuma habitação onde pudesse reclinar a cabeça, entrou numa densa sebe onde os espinhos haviam formado como que um tugúrio; e aí esteve imóvel toda a quaresma, sem comer e sem beber nada.


O predito hospedeiro buscou São Francisco de volta na Quinta-feira Santa, como havia combinado; e descobriu que, dos dois ditos pãezinhos, nada mais fora comido além da metade de um. Crê-se que São Francisco comeu esta metade para reservar para Cristo bendito a glória do jejum quaresmal e para expulsar com aquele pedaço de pão o veneno da vanglória; de modo que, a exemplo de Cristo, ele jejuou quarenta dias e quarenta noites.

No lugar em que São Francisco celebrou tão admirável penitência, realizaram-se pelos seus méritos muitos milagres; desde então, por causa de todas estas coisas, os homens começaram a edificar habitações naquela ilha e, decorrido pouco tempo, foi construído um grande e bom castelo, e também um eremitério dos irmãos, que se chama Eremitério da Ilha. Os homens daquele castelo ainda mostram grande reverência àquele lugar em que São Francisco celebrou a predita quaresma” (Atos do bem-aventurado Francisco e de seus companheiros, cap. VI).



2 – Quaresma do Advento do Senhor



A segunda quaresma antecedia a festa do Natal do Senhor. A partir do dia de Todos os Santos, São Francisco se preparava intensamente para celebrar a “festa das festas”. Na Regra da Ordem ele escreveu: “E jejuem desde a festa de Todos os Santos até ao Natal do Senhor” (RB 3,6).



Foi numa dessas quaresmas do Advento que São Francisco, estando no eremitério de Greccio, mandou preparar uma gruta para celebrar ali o nascimento de Jesus na humildade e na pobreza.



3 – Quaresma da Epifania


A terceira quaresma era aquela que o santo fazia após o tempo do santo Natal. “Com esta quaresma São Francisco pretendia estabelecer um laço entre o tempo do Natal e da Páscoa. Na realidade ela, muitas vezes, não durava quarenta dias e se inseria na “grande quaresma”. O homem evangélico havia intuído que Natal e Páscoa estão profundamente ligados entre si, representando como que dois pólos do único mistério da salvação” (Ludovico Profili, Dicionário Franciscano, Vozes, pg.628).


Na Regra da Ordem, São Francisco aconselhou:

 “A santa quaresma, porém, que começa com a Epifania e se prolonga por quarenta dias, a qual o Senhor consagrou com seu santo jejum, os que nela jejuarem voluntariamente sejam abençoados pelo Senhor, e os que não o quiserem não sejam obrigados” (RB 3,7).



São Boaventura nos informa que o seráfico pai: “dedicava-se sem interrupção às orações e louvores de Deus, desde a Epifania, por quarenta dias sucessivos – a saber, naquele tempo em que Cristo se escondeu no deserto -, retirando-se a lugares solitários e recolhendo-se na cela, com maior restrição possível de alimento e de bebida” (LM9,2).




4 – Quaresma de São Miguel



A quarta quaresma era feita em honra do arcanjo São Miguel, devoção especial de São Francisco. “Esta quaresma é característica própria do Seráfico contemplativo. Não a impôs nem mesmo a aconselhou a seus irmãos. Qui-la somente para si” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 629).



Esta quaresma era iniciada na festa da Assunção da Virgem Maria e terminava na festa do arcanjo: São Francisco “venerava com o maior afeto os anjos que estão conosco... Dizia que estes companheiros devem ser reverenciados em toda parte e que estes guardas devem ser invocados. (...) Dizia muitas vezes que São Miguel devia ser mais excelentemente honrado, pelo fato que este tinha o ofício de apresentar as almas a Deus. De fato, em honra de São Miguel, jejuava com muita devoção por quarenta dias entre a festa da Assunção e a festa dele.” (2 Celano 197).



5 – Quaresma que ia da festa dos Apóstolos Pedro e Paulo até à Assunção da Virgem Maria


“A última das quaresmas vividas pelo valente atleta de Cristo é expressão de sua profunda piedade eclesial. O início desta quaresma, no dia da festa dos Apóstolos Pedro e Paulo, exprimia a exigência de comunhão com a sagrada hierarquia, particularmente com o papa, sinal da unidade e da universalidade da Igreja. A conclusão no dia da festa da Assunção acentuava a verdade de fundo da devoção a Nossa Senhora: Maria é figura da Igreja” (L.Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 629).



São Boaventura nos informa que o santo pai “Cercava com indizível amor a Mãe do Senhor Jesus, pelo fato que ela fez com que se tornasse irmão nosso o Senhor da majestade, e por meio dela alcançamos misericórdia. (...) Jejuava com muita devoção em honra dela desde a festa dos apóstolos Pedro e Paulo até a festa da Assunção. (...) Abraçando com a máxima devoção todos os apóstolos, principalmente Pedro e Paulo (...) e por reverência e amor para com eles, dedicava ao Senhor o jejum de uma quaresma especial (Legenda Maior 9,3).



       São Francisco reservava, portanto, bem mais da metade de cada ano a esses retiros quaresmais: “durante duzentos dias por ano ele passava na solidão ou no retiro, rezando e mortificando-se, longe dos homens e perto de Deus. Desta maneira empregava dois terços de seu tempo na contemplação e somente um terço nas lides apostólicas. Durante um período aproximado de vinte anos, assim, ele mudou a face do mundo” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 630).



CARACTERÍSTICAS DAS QUARESMAS DE SÃO FRANCISCO



MORTIFICAÇÃO – o seráfico pai se mortificava para que morresse nele o “homem velho” e nascesse o “homem novo”. São Francisco “ao mortificar a própria carne, não o faz por ódio e sim por amor. Levar a própria natureza, com duros jejuns e prolongadas vigílias, da animalidade à espiritualidade, significa amá-la da forma mais verdadeira” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 630).




DESERTO – São Francisco refugiava-se nos bosques, nas montanhas, nas grutas para se ocupar somente de Deus. Ficava longe até mesmo de seus frades a quem tanto amava.







POBREZA – O seráfico pai queria que a senhora Pobreza reinasse soberana nos lugares de seus retiros.







BELEZA E ALEGRIA DAS CRIATURAS – “O amor de São Francisco pela pobreza não o impedia de admirar todas as criaturas, de degustar o que é bom e belo proclamado pela harmonia do universo. Não queria possuir coisa alguma, precisamente porque desejava gozar livremente de todas. Livre de toda cupidez estava em adequadas condições para ouvir a voz das criaturas, cercá-las de amor e elevá-las com Cristo a Deus Pai. Por este motivo, para realizar as suas quaresmas, Francisco escolhia o verde das selvas, a verdade das ervas e das flores, o canto dos pássaros, a vastidão dos horizontes, que facilitavam seu impulso contemplativo e revestiam de cunho alegre seus jejuns e suas mortificações” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 631).



PAX ET BONUM!

   


Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.