terça-feira, 1 de março de 2011



AS QUARESMAS DE SÃO FRANCISCO









O termo “QUARESMA”, usado desde a antiguidade cristã, indica o período de quarenta dias que antecede imediatamente a celebração anual dos Santos Mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.


No primeiro dia da quaresma, o fiel recebe as cinzas enquanto ouve o apelo de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
Por que a Liturgia da Igreja estabeleceu quarenta dias de preparação para a Santa Páscoa do Senhor? A razão desse número nós a encontramos na Sagrada Escritura:



# Gn 7,17: “Durante quarenta dias houve o dilúvio sobre a terra”.

# Ex 17,35: “Os filhos de Israel comeram maná durante quarenta anos, até chegarem à terra habitada”.

# Ex 24,18b: “E Moisés permaneceu na montanha quarenta dias e quarenta noites”.

 # 1Rs 19, 8: Elias “ levantou-se, comeu e bebeu e, depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb”.

# Jn 3,4-5: “Jonas entrou na cidade e a percorreu durante um dia. Pregou então, dizendo: ‘Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída’. Os homens de Nínive creram em Deus, convocaram um jejum e vestiram-se de saco, desde o maior até o menor”.

# Mt 4,1-2: “Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome”.



 O bem-aventurado Francisco, querendo em tudo conformar-se a Cristo, costumava preparar bem a sua alma para reviver os grandes Mistérios do Senhor que a Igreja celebra ao longo do ano em sua Divina Liturgia. Ele não se limitava a viver a “grande quaresma” em preparação à santa Páscoa. Antes de outras grandes solenidades, ele se recolhia nos eremitérios e se entregava por quarenta dias aos jejuns, orações e outras penitências. Os antigos documentos da Ordem atestam que o seráfico pai fazia cinco quaresmas por ano.



1 – A “Grande Quaresma”



Em união com toda a Santa Igreja, São Francisco se preparava com o maior empenho para celebrar anualmente a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.  Era para ele a quaresma das quaresmas! Ficou famosa aquela quaresma que, para imitar a Cristo no deserto, o santo se retirou numa ilha:



“Estando no território de Perúgia, perto do lago, fora hospedado em dia de carnaval em casa de um homem que lhe era devoto. São Francisco pediu-lhe por amor de Cristo que ele o transportasse a uma ilha do mesmo lago - na qual nenhum homem habitava –, a saber, na noite antes do dia das Cinzas, de tal modo que ninguém o percebesse. Aquele hospedeiro, por causa da grande devoção que tinha para com ele, realizou isto com mais diligência ainda; por isso levantou-se de noite, preparou o barco e no dia das Cinzas levou São Francisco à mencionada ilha. E São Francisco nada levou como alimento, a não ser dois pãezinhos.
Desembarcados na mencionada ilha, ele pediu a seu barqueiro que não revelasse isto a ninguém e que somente o buscasse de volta na Quinta-feira Santa. Tendo-se retirado da ilha o seu barqueiro, São Francisco permaneceu só; e já que aí não havia nenhuma habitação onde pudesse reclinar a cabeça, entrou numa densa sebe onde os espinhos haviam formado como que um tugúrio; e aí esteve imóvel toda a quaresma, sem comer e sem beber nada.


O predito hospedeiro buscou São Francisco de volta na Quinta-feira Santa, como havia combinado; e descobriu que, dos dois ditos pãezinhos, nada mais fora comido além da metade de um. Crê-se que São Francisco comeu esta metade para reservar para Cristo bendito a glória do jejum quaresmal e para expulsar com aquele pedaço de pão o veneno da vanglória; de modo que, a exemplo de Cristo, ele jejuou quarenta dias e quarenta noites.

No lugar em que São Francisco celebrou tão admirável penitência, realizaram-se pelos seus méritos muitos milagres; desde então, por causa de todas estas coisas, os homens começaram a edificar habitações naquela ilha e, decorrido pouco tempo, foi construído um grande e bom castelo, e também um eremitério dos irmãos, que se chama Eremitério da Ilha. Os homens daquele castelo ainda mostram grande reverência àquele lugar em que São Francisco celebrou a predita quaresma” (Atos do bem-aventurado Francisco e de seus companheiros, cap. VI).



2 – Quaresma do Advento do Senhor



A segunda quaresma antecedia a festa do Natal do Senhor. A partir do dia de Todos os Santos, São Francisco se preparava intensamente para celebrar a “festa das festas”. Na Regra da Ordem ele escreveu: “E jejuem desde a festa de Todos os Santos até ao Natal do Senhor” (RB 3,6).



Foi numa dessas quaresmas do Advento que São Francisco, estando no eremitério de Greccio, mandou preparar uma gruta para celebrar ali o nascimento de Jesus na humildade e na pobreza.



3 – Quaresma da Epifania


A terceira quaresma era aquela que o santo fazia após o tempo do santo Natal. “Com esta quaresma São Francisco pretendia estabelecer um laço entre o tempo do Natal e da Páscoa. Na realidade ela, muitas vezes, não durava quarenta dias e se inseria na “grande quaresma”. O homem evangélico havia intuído que Natal e Páscoa estão profundamente ligados entre si, representando como que dois pólos do único mistério da salvação” (Ludovico Profili, Dicionário Franciscano, Vozes, pg.628).


Na Regra da Ordem, São Francisco aconselhou:

 “A santa quaresma, porém, que começa com a Epifania e se prolonga por quarenta dias, a qual o Senhor consagrou com seu santo jejum, os que nela jejuarem voluntariamente sejam abençoados pelo Senhor, e os que não o quiserem não sejam obrigados” (RB 3,7).



São Boaventura nos informa que o seráfico pai: “dedicava-se sem interrupção às orações e louvores de Deus, desde a Epifania, por quarenta dias sucessivos – a saber, naquele tempo em que Cristo se escondeu no deserto -, retirando-se a lugares solitários e recolhendo-se na cela, com maior restrição possível de alimento e de bebida” (LM9,2).




4 – Quaresma de São Miguel



A quarta quaresma era feita em honra do arcanjo São Miguel, devoção especial de São Francisco. “Esta quaresma é característica própria do Seráfico contemplativo. Não a impôs nem mesmo a aconselhou a seus irmãos. Qui-la somente para si” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 629).



Esta quaresma era iniciada na festa da Assunção da Virgem Maria e terminava na festa do arcanjo: São Francisco “venerava com o maior afeto os anjos que estão conosco... Dizia que estes companheiros devem ser reverenciados em toda parte e que estes guardas devem ser invocados. (...) Dizia muitas vezes que São Miguel devia ser mais excelentemente honrado, pelo fato que este tinha o ofício de apresentar as almas a Deus. De fato, em honra de São Miguel, jejuava com muita devoção por quarenta dias entre a festa da Assunção e a festa dele.” (2 Celano 197).



5 – Quaresma que ia da festa dos Apóstolos Pedro e Paulo até à Assunção da Virgem Maria


“A última das quaresmas vividas pelo valente atleta de Cristo é expressão de sua profunda piedade eclesial. O início desta quaresma, no dia da festa dos Apóstolos Pedro e Paulo, exprimia a exigência de comunhão com a sagrada hierarquia, particularmente com o papa, sinal da unidade e da universalidade da Igreja. A conclusão no dia da festa da Assunção acentuava a verdade de fundo da devoção a Nossa Senhora: Maria é figura da Igreja” (L.Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 629).



São Boaventura nos informa que o santo pai “Cercava com indizível amor a Mãe do Senhor Jesus, pelo fato que ela fez com que se tornasse irmão nosso o Senhor da majestade, e por meio dela alcançamos misericórdia. (...) Jejuava com muita devoção em honra dela desde a festa dos apóstolos Pedro e Paulo até a festa da Assunção. (...) Abraçando com a máxima devoção todos os apóstolos, principalmente Pedro e Paulo (...) e por reverência e amor para com eles, dedicava ao Senhor o jejum de uma quaresma especial (Legenda Maior 9,3).



       São Francisco reservava, portanto, bem mais da metade de cada ano a esses retiros quaresmais: “durante duzentos dias por ano ele passava na solidão ou no retiro, rezando e mortificando-se, longe dos homens e perto de Deus. Desta maneira empregava dois terços de seu tempo na contemplação e somente um terço nas lides apostólicas. Durante um período aproximado de vinte anos, assim, ele mudou a face do mundo” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 630).



CARACTERÍSTICAS DAS QUARESMAS DE SÃO FRANCISCO



MORTIFICAÇÃO – o seráfico pai se mortificava para que morresse nele o “homem velho” e nascesse o “homem novo”. São Francisco “ao mortificar a própria carne, não o faz por ódio e sim por amor. Levar a própria natureza, com duros jejuns e prolongadas vigílias, da animalidade à espiritualidade, significa amá-la da forma mais verdadeira” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 630).




DESERTO – São Francisco refugiava-se nos bosques, nas montanhas, nas grutas para se ocupar somente de Deus. Ficava longe até mesmo de seus frades a quem tanto amava.







POBREZA – O seráfico pai queria que a senhora Pobreza reinasse soberana nos lugares de seus retiros.







BELEZA E ALEGRIA DAS CRIATURAS – “O amor de São Francisco pela pobreza não o impedia de admirar todas as criaturas, de degustar o que é bom e belo proclamado pela harmonia do universo. Não queria possuir coisa alguma, precisamente porque desejava gozar livremente de todas. Livre de toda cupidez estava em adequadas condições para ouvir a voz das criaturas, cercá-las de amor e elevá-las com Cristo a Deus Pai. Por este motivo, para realizar as suas quaresmas, Francisco escolhia o verde das selvas, a verdade das ervas e das flores, o canto dos pássaros, a vastidão dos horizontes, que facilitavam seu impulso contemplativo e revestiam de cunho alegre seus jejuns e suas mortificações” (L. Profili, Dic. Franciscano, Vozes, pg. 631).



PAX ET BONUM!

   


Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A SAUDAÇÃO FRANCISCANA:

 “PAX ET BONUM


São Francisco quis em tudo seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele procurava observar fielmente cada palavra proferida pelo Filho de Deus.


No Evangelho, em vários momentos, Jesus fala de Paz:

+ “Bem aventurados os que promovem a Paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).
+ “Ao entrarem numa casa, digam primeiro: a Paz esteja nesta casa” (Lc 10,5).
+ “Eu vos deixo a Paz, eu vos dou a minha Paz. Não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo 14,27).
+ “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: ‘a Paz esteja convosco!’ (Jo 20,19).


Na noite do Natal, os anjos glorificam a Deus e anunciam a Paz dizendo:


“Glória a Deus nas alturas, e Paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).




O apóstolo Paulo saúda os cristãos desejando a Paz:

# “Que o Senhor da Paz vos dê a Paz sempre e em tudo” (2Ts 3,16).
# “Graça a vós outros e Paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1Cor 1,3; 2Cor 1,2; Gl 1,3; Ef 1,2; Fl 1,2; etc).
# “Vivei em Paz; e o Deus de amor e de Paz estará convosco” (2Cor 13,11b).
# “Graça e Paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai” (Cl 1,2b).



São Francisco ensinou aos seus frades a serem promotores da Paz, como Jesus tinha ensinado no Evangelho:



Na Regra não Bulada, o santo pai nos diz:

“Quando os irmãos vão pelo mundo, nada levem pelo caminho, nem bolsa, nem sacola nem pão nem dinheiro nem bastão. E, em qualquer casa em que entrarem, digam primeiramente: a Paz esteja nesta casa. E, permanecendo na mesma casa, comam e bebam do que eles tiverem” (RNB 14).

Na Regra Bulada, São Francisco escreveu:

“Sejam mansos, pacíficos e modestos, brandos e humildes, falando a todos honestamente, como convém. (...) Em qualquer casa em que entrarem, digam primeiramente: Paz a esta casa” (RB 3).

O Pai Seráfico também dizia:

“Assim como proclamais a Paz com a boca, assim em maior medida a tenhais nos vossos corações. Ninguém por meio de vós seja provocado à ira ou ao escândalo, mas todos sejam provocados pela vossa mansidão à Paz, à benignidade e à concórdia” (Legenda dos Três Companheiros 58).

Como São Francisco entendia a Paz?


“São verdadeiramente pacíficos aqueles que, por tudo o que sofrem neste mundo, conservam a paz na alma e no corpo por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Admoestações 15).



Tomás de Celano nos informa sobre o anúncio da Paz que o santo pai sempre fazia:

 “Em toda pregação sua, antes de propor a palavra de Deus aos que estavam reunidos, invocava a Paz, dizendo: ‘O Senhor vos dê a Paz!’. Anunciava-a sempre mui devotamente a homens e mulheres, aos que ele encontrava e aos que lhe vinham ao encontro. Por esta razão, muitos que odiavam a Paz, com a cooperação do Senhor, abraçaram de todo o coração a salvação juntamente com a Paz, tornando-se também eles filhos da Paz e desejosos da salvação eterna” (1Celano 23, 6-8).

Tomás de Celano descreve o envio dos primeiros frades:


 “O bem-aventurado Francisco convocou todos a si e, anunciando-lhes muitas coisas sobre o reino de Deus, (...) dividiu-os dois a dois para as quatro partes do mundo e disse-lhes: ‘Ide, caríssimos, dois a dois, pelas diversas partes do mundo, anunciando aos homens a Paz e a penitência para a remissão dos pecados’ (1Celano 29,2-3).


No seu Testamento, São Francisco fala claramente sobre a saudação da Paz:



“Como saudação, o Senhor me revelou que disséssemos: o Senhor te dê a Paz” (Testamento 23).





Mas de onde a tradição franciscana tirou a expressão “Pax et Bonum” (Paz e Bem)? Vejamos o que nos diz a Legenda dos Três Companheiros.


“Como mais tarde ele próprio testemunhou, aprendera este modo de saudação que o Senhor lhe revelara: ‘O Senhor te dê a Paz!’. Por esta razão, em toda pregação sua, saudava o povo, anunciando a Paz no início da pregação.

E é certamente admirável – e isto não se pode admitir sem [que tenha sido] milagre – que, para anunciar esta saudação, tivera antes de sua conversão um precursor que frequentemente andara por Assis, saudando deste modo: ‘Paz e Bem! Paz e Bem!’ A partir disto, acreditou-se firmemente que, como João que anunciava a Cristo deixou de pregar quando Cristo iniciou, do mesmo modo também esse, como outro João, precedeu a Francisco no anúncio da Paz, e também, depois da chegada de Francisco, não apareceu mais como antes” (Legenda dos Três Companheiros 26, 1-4).


Que nosso pai seráfico São Francisco de Assis nos ajude a ter um coração pacificado.
Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa Paz!

PAX ET BONUM!

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SÃO FRANCISCO E O NATAL


De acordo com o Fr. Tomás de Celano, São Francisco “celebrava com inefável alegria, mais do que as outras solenidades, o Natal do Menino Jesus, afirmando que é a festa das festas, em que Deus, tornando-se criança pequenina, dependeu de peitos humanos.” (2Celano 199,1).
O seráfico pai “queria que nesse dia os pobres e famintos fossem saciados pelos ricos e que aos bois e aos burros fossem concedidos ração e feno mais do que de costume. Disse: se eu pudesse falar com o imperador, pediria que se fizesse uma lei geral para que todos aqueles que podem atirem pelas ruas trigo e grãos, a fim de que, no dia de tão grande solenidade, os pássaros tenham fartura, principalmente a irmãs cotovias.” (2Celano 200,1-2).


Na “Compilação de Assis”, importante fonte franciscana, o autor  nos deixa registrado o modo de como São Francisco desejava que se celebrasse o Natal do Senhor: “queria que nesse dia todo cristão exultasse no Senhor, e, por amor daquele que se entregou a si mesmo, todo homem fosse generoso com alegria não somente para com os pobres, mas também para com os animais e as aves.” (CA 14,8).


         Tomás de Celano nos informa de como o seráfico pai queria que fosse celebrado o Natal, caso ele ocorresse numa sexta-feira, dia de penitência: “como se conversasse sobre a questão de não comer carnes, porque era dia de sexta-feira, ele respondeu a frei Mórico, dizendo: Irmão, pecas ao chamar de sexta-feira o dia em que o Menino nos foi dado. Quero que até as paredes comam carne neste dia e, se não podem, pelo menos sejam esfregadas com carne por fora.” (2Celano 199,4-5).




O NATAL DE GRECCIO


         Em 1223, no terceiro ano antes de sua morte, São Francisco quis celebrar o Natal do Senhor de um modo singular. Na aldeia de Greccio (Itália), havia um homem virtuoso chamado João, a quem São Francisco tinha um profundo afeto. Ele foi chamado pelo santo que lhe disse: “Se desejas que celebremos em Greccio a presente festividade do Senhor, apressa-te e prepara diligentemente as coisas que te digo. Pois quero celebrar a memória  daquele menino que nasceu em Belém e ver de algum modo com os olhos corporais os apuros e necessidades da infância dele, como foi reclinado no presépio e como, estando presentes o boi e o burro, foi colocado sobre o feno.”(1Celano 84,7-8). Apressadamente, o homem foi e preparou tudo como o santo tinha ordenado.


São Boaventura, por sua vez, escreve assim: “E aconteceu, no terceiro ano antes de sua morte, na aldeia de Greccio, que ele decidiu celebrar a memória do nascimento do Menino Jesus com a maior solenidade que pudesse para reavivar a devoção. E para que isto não pudesse ser tachado como novidade, tendo pedido e obtido a licença do sumo pontífice, mandou que fosse preparado o presépio, que fosse trazido o feno e que fossem conduzidos o boi e o burro ao eremitério.” (Legenda Maior 10,7).


Chegando a noite santa do Natal do Senhor, muitos homens e mulheres de Greccio acorreram ao lugar determinado por São Francisco. Tratava-se de uma pequena gruta, afastada da aldeia e bem próxima do eremitério dos frades. “Veio finalmente o santo de Deus e, encontrando tudo preparado, viu e alegrou-se. E, de fato, prepara-se o presépio, traz-se o feno, são conduzidos o boi e o burro. Ali se honra a simplicidade, se exalta a pobreza, se elogia a humildade; e de Greccio se fez como que uma nova Belém.” (1Celano 85,3-5).



         O Frei Tomás de Celano, escrevendo a primeira “biografia” do seráfico pai em 1228, descreve o seu estado de espírito: “o santo de Deus está de pé diante do presépio, cheio de suspiros, contrito de piedade, e transbordante de admirável alegria. Celebra-se a solenidade da missa sobre o presépio, e o sacerdote frui nova consolação.” (1Celano 85,10-11).


São Francisco cantou o Evangelho e fez a pregação: “O santo de Deus veste-se com os ornamentos de levita, porque era levita, e com voz sonora canta o Evangelho. (...) Prega em seguida ao povo presente e profere coisas melífluas sobre o nascimento do Rei pobre e sobre Belém, a pequena cidade.” (1Celano 86,1.3)


São Boaventura, seguindo o texto de Celano, nos informa que, durante a solene liturgia, João de Greccio teve uma feliz visão: “Um cavaleiro virtuoso e digno de fé, o senhor João de Greccio que, tendo abandonado a cavalaria secular por amor de Cristo, se ligou com grande amizade ao homem de Deus, afirmou que viu um menino muito formoso a dormir naquele presépio, a quem o bem-aventurado pai Francisco, abraçando com ambos os braços, parecia despertar do sono” (Legenda Maior 10,7). “E esta visão era muito apropriada, pois que o menino Jesus tinha sido relegado ao esquecimento nos corações de muitos, mas neles ele ressuscitou, agindo a sua graça por meio de seu servo São Francisco.” (1Celano 86,8).


A palha do presépio de Greccio foi guardada pelos fiéis para curar os animais: “aconteceu que muitos animais que tinham diversas doenças pela região ao redor, ao comerem deste feno, foram libertados de suas doenças. Até mesmo as mulheres que trabalhavam em grave e longo parto, colocando sobre si um pouco do predito feno, dão à luz com parto saudável; e a multidão de homens e mulheres obtém a desejada saúde de diversas doenças.” (1Celano 87,2-3).


Tomás de Celano nos fala do amor que São Francisco tinha pelo lugar em que os frades moravam em Greccio: “O santo gostava de morar no eremitério dos irmãos em Greccio, seja porque via que era rico de pobreza, seja porque na pequena cela mais distante, construída numa rocha proeminente, se dedicava mais livremente às disciplinas celestes. Este é aquele lugar em que outrora ele recordou o Natal do Menino de Belém, tornando-se menino com o Menino.” (2Celano 35,1-2).




Segundo o doutor em teologia e história eclesiástica, Cesarius van Hulst, “o que Francisco queria ‘ver’ era a total pobreza e a extrema humilhação do Filho de Deus nascido em Belém e estabelecer uma ligação entre a vinda de Jesus no presépio e sua vinda sacramental no altar da Eucaristia. Certamente esta é a interpretação mais apropriada do Natal de Greccio.” (Dicionário Franciscano, Vozes, 2ª edição, pág. 469).



Essa interpretação ganha um sentido maior quando escutamos o ensinamento do próprio São Francisco: “Eis que diariamente ele se humilha, como quando veio do trono real ao útero da Virgem; diariamente ele vem a nós em aparência humilde; diariamente ele desce do seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote.” (Admoestação I, 16-18).





O que de fato teria acontecido em Greccio naquele natal de 1223? Teria Francisco criado o primeiro presépio? Teria encenado pela primeira vez uma peça teatral natalina?

Se entendermos o presépio como hoje o conhecemos, isto é, uma representação artística do nascimento de Jesus através de diversas imagens sacras como a Virgem com seu menino, os pastores, os magos, entre tantas outras, parece-nos sensato afirmar, apoiando-nos sempre no texto do Frei Tomás de Celano, que na gruta de Gréccio não havia tais imagens. Ali se diz apenas que São Francisco introduziu o boi e o burro, para que ficassem diante do feno, sobre o qual foi celebrada a sagrada liturgia.


Por outro lado, São Francisco não realizou uma simples dramatização do nascimento do Filho de Deus. Sabe-se que, desde o século X, em muitas partes da Europa, havia os famosos dramas natalinos, os quais, bem elaborados, encenavam não só o nascimento do menino, mas também a visita dos pastores, a visita dos magos, a matança dos inocentes, etc. Em Greccio, não se fala de atores, nem de coreografia, nem de textos a serem recitados. Ali não houve teatro; ali, São Francisco com seus frades e os aldeões celebrou de um modo singular, na mais pura fé e amor, a noite sagrada do nascimento do nosso Salvador.


Portanto, a grande contribuição de São Francisco não foi a de ter inventado uma peça teatral, ou de ter elaborado artisticamente um presépio como hoje o conhecemos. O Pobrezinho de Assis nos ensinou a maneira mais sublime de se aproximar daquele que por nós se fez pobre e desprezível. São Francisco quis ver com seus próprios olhos a pobreza e a humildade do Filho Eterno de Deus, que não só veio a nós em Belém, mas continua vindo a nós sobre o altar todos os dias na modesta forma de pão.

(Para um maior aprofundamento deste tema: Dicionário Franciscano, Vozes, 2ª edição, 1999, pág. 468-475).



Agora, contemple um maravilhoso lugar chamado Greccio:


cidadezinha de Greccio

Greccio vista de longe

Convento de Greccio: local onde Francisco celebrou o Natal.



Convento de Greccio: aqui se localiza a gruta na qual Francisco celebrou o Natal.


Subindo para o convento de Greccio.


Convento de Greccio construído num penhasco.



Veja que vista maravilhosa os peregrinos podem ter quando chegam ao convento de Greccio


Peregrinos chegam de todos os lugares para visitar a gruta de são Francisco.


Igreja do Convento de Greccio.


Gruta na qual S. Francisco celebrou o Natal.


Gruta na qual Francisco celebrou o Natal.

                                                                                 
                                                                                  Feliz Natal!
                                                                                    Frei Salvio Romero.
Eremita capuchinho.