domingo, 18 de junho de 2017

A Família Capuchinha






1.1 - O Sonho de retornar às origens...


A Ordem dos Frades Menores, fundada pelo pai São Francisco nos inícios do século XIII, tinha como grande ideal seguir a Cristo e ao seu Evangelho numa vida de intensa fraternidade e efetiva minoridade.

De uma origem muito simples e pobre, esta Ordem logo conheceu grande desenvolvimento e ampla difusão, conquistando o mundo das universidades, dos grandes centros urbanos e dos grandes conventos. Ainda no século XIII esta Ordem deu à Igreja um papa, diversos bispos, cardeais, teólogos e pregadores de grande competência.

Apesar desse glorioso desenvolvimento, permanecia no coração de muitos franciscanos o desejo de retornar àquela maior simplicidade das origens e àquele modo radical de viver a pobreza evangélica praticada e ensinada pelo bem-aventurado pai São Francisco e seus primeiros companheiros.

A história franciscana está repleta dessas tentativas de retorno e de reforma não sem graves conflitos e divisões dentro da Ordem.

Passados três séculos da fundação da Ordem de São Francisco, surgia na região das Marcas, Itália, um grupo de frades que buscavam viver radicalmente a Regra Franciscana numa pobreza austera e numa vida retirada na solidão contemplativa dos eremitérios, sem deixar de lado a pregação popular do Evangelho feita de modo simples e claro.

Assim, no dia 03 de julho de 1528, o Papa Clemente VII aprovava oficialmente essa pequena fraternidade de franciscanos, chamados logo a seguir de Frades Capuchinhos.









1.2 - Origens dos Capuchinhos

As origens da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos remontam ao ano de 1525, quando, na região italiana das Marcas, o frei Mateus de Bascio, querendo seguir radicalmente o ideal franciscano primitivo como pregador itinerante, foge do seu convento e consegue do papa uma aprovação oral para  o seu intento. Por causa de seus ideais, frei Mateus foi perseguido e encarcerado pelo seu superior. Livrou-se da prisão graças à intervenção de Catarina Cybo, duquesa de Camerino e sua ilustre admiradora.

Ainda neste mesmo ano de 1525, entram em cena os dois irmãos de sangue, Frei Ludovico e Frei Rafael de Fossombrone. Eles também buscavam o ideal primitivo de São Francisco e seus primeiros companheiros, e para isso queriam unir-se ao frei Mateus.

Como não conseguiam licença dos superiores para a vida eremítica, tornaram-se fugitivos e, por esta razão, foram perseguidos e procurados pelas autoridades da Ordem. Em março de 1526, encontramos o frei Ludovico e o frei Rafael refugiados entre os monges Camaldulenses.

Os dois irmãos buscavam a vida pobre e contemplativa nos eremitérios, enquanto o frei Mateus desejava mais a vida itinerante e missionária. Essas duas tendências irão marcar a vida e a espiritualidade dos primeiros capuchinhos.

Aos 18 de maio de 1526, eles conseguiram do penitenciário maior, o cardeal Lourenço Pucci, uma autorização para viver como eremitas sob a proteção do bispo de Camerino e sem a interferência dos superiores da Ordem Franciscana.

E lá se foram eles morar no eremitério de São Cristovão de Arcofiato, aproximadamente uns três quilômetros de Camerino. Foi neste lugar que o Frei Ludovico amadureceu o projeto de dar vida à nova reforma franciscana.

Graças à intervenção da grande benfeitora daqueles primeiros frades, Catarina Cybo, a duquesa de Camerino, no dia 03 de julho de 1528, o frei Ludovico conseguiu do Papa Clemente VII, a Bula Religionis zelus que aprovava e reconhecia oficialmente a nova reforma franciscana.




São Félix de Cantalice (séc. XVI), primeiro santo capuchinho.





1.3 - A grande Família Capuchinha


Aos 03 de julho, celebramos o Dia da Família Capuchinha: uma família espiritual dentro da grande e fecunda família franciscana.

Esta data foi escolhida porque no dia 03 de julho de 1528, através da Bula Religionis Zelus, o Papa Clemente VII reconhecia e aprovava oficialmente a nova reforma na Ordem Franciscana, chamada logo nos seus inícios de Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

Dez anos mais tarde, em 1538, na cidade de Nápoles, o Mosteiro fundado pela venerável Maria Lourença Longo é agregado à Ordem dos Capuchinhos por determinação do Papa Paulo III, formando com eles uma só família espiritual.

Nesses 489 anos de existência da Ordem dos Capuchinhos, inúmeros institutos de vida consagrada, sociedades de vida apostólica, associações de fiéis e outras tantas instituições nasceram por iniciativas dos capuchinhos ou foram assistidas por eles, formando uma só família que se inspira na mesma tradição espiritual.


Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.





 Pax et Bonum!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Refeição na Porciúncula: Santa Clara e São Francisco
(baseado em Fioretti 15)









“São Francisco, quando estava em Assis, frequentes vezes visitava Santa Clara, dando-lhes santos ensinamentos”. Ela tinha grande desejo de comer uma vez com o santo pai, mas ele sempre resistia a dar-lhe esta santa consolação.


Incentivado por seus frades, o pai Francisco decidiu realizar aquele piedoso desejo de Santa Clara, dizendo: “Quero que esta refeição se faça em Santa Maria dos Anjos, pois foi ali que nossa irmã Clara foi consagrada ao Senhor, tornando-se esposa de Jesus. Ali comeremos juntos em nome de Deus”.








Quando chegou o dia marcado, “Santa Clara saiu do mosteiro com uma companheira, e, acompanhada pelos companheiros de São Francisco, chegou a Santa Maria dos Anjos e saudou a Virgem Maria” diante do altar onde tinha sido consagrada ao Senhor.


Chegada a hora do jantar, São Francisco mandou pôr a mesa sobre a terra nua como de costume. Sentaram-se São Francisco e Santa Clara juntamente com os frades e a companheira da santa.


O Pai São Francisco começou a falar tão bonito sobre Deus e suas maravilhas que logo todos ficaram arrebatados. E, assim, arrebatados permaneceram por muito tempo com os olhos e as mãos erguidos para o céu.







Os habitantes de Assis e da região viram de longe que a igrejinha de Santa Maria dos Anjos e todo o bosque ao seu redor estavam em chamas. Parecia que um terrível incêndio tinha tomado a casa dos frades na Porciúncula.


Os homens de Assis e da região correram apressadamente para ver o que se passava em Santa Maria da Porciúncula. Mas, chegando ao lugar e não encontrando nada queimando, “entraram dentro e acharam São Francisco com Santa Clara e com toda a sua companhia arrebatados em Deus em contemplação e assentados ao redor desta humilde mesa”. Era fogo divino e não fogo material! Era fogo divino que fazia arder os corações daqueles santos frades e santas monjas.









Após aquela santa refeição, Santa Clara voltou ao mosteiro de São Damião bem acompanhada pelos frades de São Francisco, alegrando-se muitíssimo no Senhor.


Em louvor de Cristo. Amém.









Paz e bem!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lectio Divina


A Sagrada Escritura pode ser lida e apreciada por diversos tipos de leitores, tendo cada um deles diferentes intencionalidades e variadas motivações. Alguém, por exemplo, pode ler um texto bíblico simplesmente por curiosidade, enquanto outra pessoa pode ler o mesmo texto para aprofundar seus conhecimentos teológicos. A Sagrada Escritura pode ser fonte de espiritualidade para uns, enquanto para outros pode ser apenas fonte de informação histórica ou literária.


Há, entretanto, uma maneira especial de ler e apreciar os textos bíblicos que difere de todos os outros modos. Trata-se da “Lectio Divina”, um método de leitura que remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Foi Orígenes, o grande teólogo alexandrino do século III, quem usou pela primeira vez a expressão “Lectio Divina” para se referir a esta modalidade de leitura bíblica que também é conhecida como “Leitura Orante”.


A Lectio Divina é a leitura atenta e amorosa da Sagrada Escritura, feita por quem deseja escutar a Deus e obedecê-lo fielmente. Não se trata de uma simples leitura do texto, é uma leitura que se torna oração. De fato, nem toda leitura da Sagrada Escritura é Lectio Divina.  Esta só acontece quando a Palavra de Deus é acolhida, ruminada e assimilada pelo leitor atento e fiel.






A disposição interior de quem pratica a Lectio Divina deve ser a mesma que Eli recomendou a Samuel: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” (1Sm3,10). Se, pelo contrário, o leitor permanecer fechado, insensível e surdo, ele nunca escutará a Deus que lhe fala ao coração.  Por isso, antes mesmo de iniciar a leitura bíblica, precisamos pedir ao Espírito Santo que nos faça sentir, enxergar e ouvir aquilo que o Pai do céu deseja nos comunicar.


Por outro lado, não teria sentido escutar a Deus se não houvesse da nossa parte uma firme vontade de obedecê-lo. De que adiantaria saber o que Deus quer, se viesse a nos faltar o desejo de seguir os seus preceitos? O leitor atento da Sagrada Escritura, portanto, deve conservar em si mesmo aquela mesma atitude obediente da Virgem Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).


O Espírito Santo age no coração de quem pratica a Lectio Divina, trazendo ao leitor sensibilidade espiritual, sabedoria e discernimento. Jesus diz: “O Espírito Santo vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26). De fato, Sem o Espírito Divino não teremos capacidade de escutar a Deus, nem de compreender o sentido de sua Palavra e nem de obedecer aos seus preceitos. Aquele que “falou pelos profetas”, que deu coragem aos Apóstolos e que inspirou os escritores sagrados é o mesmo que hoje nos conduz e nos inspira quando praticamos a Lectio Divina.






A Lectio Divina não é algo a ser praticado de forma esporádica e superficial. Precisamos de um contato mais íntimo e frequente com a Palavra de Deus. Por isso, sem pressa, fiquemos aos pés do Senhor, como fez Maria, a irmã de Marta (cf. Lc 10,38-42) para escutar a sua voz e seguir os seus conselhos. Quem nunca tem tempo para “ficar aos pés do Mestre” nunca vai experimentar a “melhor parte”, reservada aos discípulos atentos e fiéis.


Praticamos a Lectio Divina porque desejamos que a Palavra de Deus oriente a nossa vida, e que o mundo inteiro seja transformado por ela. Queremos saber não somente o que foi dito no passado, mas o que nos diz agora o Senhor Deus. Lendo e relendo atentamente o texto sagrado, refletindo, ruminando e discernindo com o coração, encontraremos a vontade de Deus para cada um de nós.





Ao praticarmos a Lectio Divina, percebamos a beleza e a riqueza espiritual deste santo exercício. Graças a ele inúmeros cristãos encontraram alimento substancial para suas almas devotas e piedosas. Foi na leitura atenta e amorosa da Palavra de Deus que os mártires encontraram a fortaleza; os missionários, a coragem e os contemplativos, a consolação. Procuremos também nós tão nobre alimento para nossas almas e nos reunamos à multidão dos que sempre buscaram “noite e dia meditar a lei do Senhor” (Sl 1,3).



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.


Paz e Bem!


sexta-feira, 24 de junho de 2016

ENTRONIZAÇÃO DA IMACULADA COMO RAINHA E PATRONA DA EFRAM.






PRONUNCIAMENTO NA IGREJA DE N. SRA. DA BOA HORA, EM OLINDA, AOS 12 DE JUNHO DE 2016, POR OCASIÃO DA ENTRONIZAÇÃO DA IMACULADA COMO RAINHA E PATRONA DA EFRAM.





A todos os membros da Escola Franciscana de Meditação,
O Senhor vos dê a paz!



Estando de volta mais uma vez a este amado lugar, sinto imensa alegria de estar no meio de vós para celebrar de modo solene este jubileu de dez anos de nossa Escola. Foi aqui que o Senhor nos permitiu nascer no dia 07 de fevereiro de 2006. Hoje estamos aqui reunidos aos pés da Virgem santíssima, a Mãe da Boa Hora, para com ela proclamar todas as maravilhas que o Altíssimo realizou entre nós.

Neste jubileu, nossa Escola atingiu a quantidade de quarenta escolas locais: um número bíblico, cheio de simbolismo, que nos anima e nos fortalece na esperança. De poucos que éramos, o Pai do céu nos multiplicou e nos espalhou por diversos lugares. Hoje nós somos uma grande família reunida no santíssimo Nome de Jesus, para a honra e glória de Deus Pai, através do Espírito Santo.

Neste dia solene, véspera do glorioso Santo Antonio de Pádua, Doutor da Igreja e ilustre pregador do Evangelho, apresento a todos vós a Rainha e Patrona da Escola Franciscana de Meditação: a Imaculada Virgem Maria, concebida sem pecado, preservada de todo pecado pelos méritos de Cristo, seu filho bendito. Este oratório, contendo a pintura da Imaculada, será hoje abençoado e entregue à nossa Escola como sinal da materna proteção desta bondosa Rainha e Patrona de todos os meditantes da EFRAM.

São Francisco iniciou a sua Ordem aos pés da Virgem Maria na capela da Porciúncula. Nossa Escola nasceu também aos pés da Virgem bendita. Quis que fosse assim o Senhor Deus! Portanto, não poderíamos estar em melhor companhia, e nem poderíamos esquecer desta presença maternal da Virgem em nossa Escola.

Desde os primeiros tempos, a Ordem Seráfica dedicou grandiosa estima e devoção pela Imaculada Conceição da santíssima Virgem Maria. Os filhos de São Francisco a elegeram como a Rainha da Ordem Seráfica. Ela é a padroeira de toda a família franciscana. Portanto, a Escola Franciscana de Meditação reconhece, aceita e deseja que ela seja também a sua Patrona e Rainha.

Este oratório, hoje abençoado neste santo lugar, nós o levaremos para a cidade de Caruaru, onde ficará para a veneração de todos os meditantes e demais fiéis. Certamente nascerá em nós um maior afeto filial em relação a tão bondosa mãe. Ela está a nos apontar para o Nome bendito de Jesus. Ela não nos deixará esquecer o santíssimo Nome de seu amado filho. Toda vez que olharmos para ela, haveremos de invocar o santo Nome de Jesus.

Meditantes, olhemos para o futuro com esperança! A Imaculada vai conosco tornando o reinado de Jesus cada vez mais vivo e presente em nós. Entre nós, e de forma carinhosa a chamemos de “Imaculada dos meditantes”, a nossa Imaculada! Ela protegerá a nossa Escola com sua bendita intercessão junto a nosso Senhor Jesus Cristo. Ela haverá de nos fortalecer em nossa vocação e missão.


Bendito seja Deus Uno e Trino.
Bendito seja o Nome de Jesus.
Bendita seja a Virgem Imaculada.




Frei Salvio Romero, OFMCap.
Diretor Geral da EFRAM.




 

Pax et Bonum

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

INTERIORIDADE





Vivemos numa época em que se valoriza demasiadamente a exterioridade, a aparência, o rótulo. É o mundo das marcas, das etiquetas e das grifes para o qual não importa muito a realidade interior de cada ser. Neste contexto, a felicidade e a realização humana passam a estar estreitamente ligadas às coisas exteriores tais como a aparência física, os bens materiais ou o prestígio social.

O exterior das coisas, entretanto, pode disfarçar perfeitamente o conteúdo interior. Um rótulo bem bonito, uma embalagem bem feita e uma propaganda bem elaborada chegam a nos convencer que determinado produto é maravilhoso quando, de fato, não o é. De modo semelhante, na vida pessoal e interpessoal podemos cair em tais enganos. Quem nunca se enganou com certas aparências ou miragens?

Quem permanece somente no mundo das exterioridades vive num palco de ilusões. O “parecer” se torna mais importante do que o “ser”, e a “imagem” mais do que o “eu verdadeiro”. Para ser aceito em determinados meios sociais, procura-se manter a todo custo as aparências. Para não perder o prestígio, prefere-se manter uma falsa imagem de si mesmo.





Viver na exterioridade é viver na superficialidade. Não vale a pena. O ser humano não foi criado para viver assim. Quanto mais exterioridade, mais superficialidade. Que adianta estar todo enfeitado por fora quando lá dentro mora alguém triste e vazio? Que adianta ter prestígio e fama quando o interior não está em paz e harmonia?

As exterioridades não são capazes de dar uma resposta adequada às inquietações do coração humano. Não somos apenas um corpo material. Somos muito mais do que isso. Por esta razão, mesmo vivendo num mundo profundamente materialista, cresce o número de pessoas que buscam orientação em grupos que primam pela interioridade.

Um dos traços mais bonitos da interioridade humana é a “espiritualidade”. O homem não se conforma apenas com o conforto material ou a tranquilidade emocional. Ele sente que foi criado para algo maior. De fato, há no coração humano uma sede que não encontra saciedade a não ser em Deus.

Como podemos cuidar de nossa interioridade? Um dos caminhos mais simples é o da meditação. O ideal é que ela se torne um hábito cotidiano (duas vezes por dia). Basta recolher-se num lugar tranquilo e, em silêncio e quietude, ficar na presença de Deus. Durante vinte a trinta minutos, o meditante permanece repetindo o santo Nome de Jesus, com toda a atenção voltada para ele.






Quando meditamos, saímos da zona dos pensamentos, das reflexões, das análises, dos desejos, das emoções e das expectativas. Queremos, na verdade, sair das estreitezas do eu superficial e deixar que o Pai do céu cuide das camadas mais profundas do nosso ser. Os efeitos da meditação serão percebidos na vida cotidiana.

A meditação nos ajuda a enxergar melhor a nossa própria interioridade. Contemplaremos com alegria a beleza que habita o nosso ser. Perceberemos com maior nitidez aquilo que há de sombrio em nós, e que precisa ser acolhido, pacificado e integrado. Mas, acima de tudo, tomaremos consciência de que bem dentro de nós mora o Espírito de Deus.

A meditação também nos ajuda a valorizar e a respeitar a interioridade de cada pessoa. Não julgaremos mais pelas aparências. Não classificaremos mais pelas exterioridades. As individualidades não serão motivos para contendas ou conflitos, pelo contrário, elas serão admiradas e respeitadas. Cada pessoa será estimada justamente por ser única. Na convivência fraterna a maior aventura será conhecer o outro e deixar-se conhecer por ele. A meditação se torna, portanto, fonte de comunhão entre as pessoas.






Ao cuidar da própria interioridade, o meditante não despreza aquilo que lhe é exterior. A meditação não aprisiona o praticante em si mesmo. Ela o conduz às profundezas do seu ser, mas o devolve mais aberto para Deus e para os seus irmãos. Desta forma, interioridade e exterioridade estarão em harmonia, e já não destoarão uma da outra. Serão como faces de uma mesma moeda.





Paz e bem


Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.


terça-feira, 7 de abril de 2015

AS DISTRAÇÕES


Durante a meditação, todos nós desejamos nos concentrar somente no santo Nome de Jesus. Porém, passados alguns instantes de silêncio, percebemos que nossa mente é mais inquieta do que tínhamos pensado. Variados pensamentos e imaginações começam a surgir, afastando-nos do caminho iniciado.

A mente humana foi comparada por um sábio hindu do século IX a uma árvore cheia de macacos que pulam de galho em galho, fazendo uma tremenda confusão de ruídos e movimentos. De fato, sabemos por experiência própria que nossa mente é assim mesmo: inquieta e barulhenta. O meditante vai precisar de muita paciência e tolerância para lidar com esta realidade ao longo de sua vida.

Quando praticamos a oração discursiva (oração com palavras, pensamentos, imaginações ou reflexões), nossa mente fica de certa forma ocupada, e por isso ela não nos incomoda tanto com suas macaquices. Parece estar tranquila e sossegada. Porém, mal começamos a meditar, nossa mente reage violentamente, tornando difícil a nossa concentração.

Não temos como evitar as distrações mentais. Elas são nossas companheiras inseparáveis no caminho da meditação. Certamente os iniciantes sofrem de maneira mais forte a ação delas, porém não temos como afirmar que um dia nos livraremos totalmente delas. O que nos resta a fazer é aprender a conviver com as distrações, considerando-as não como inimigas, mas como oportunidades de treinar a nossa mente, tornando-a mais atenta e concentrada.

Os santos também sentiram grandes dificuldades para aquietar a mente durante a oração. O pai São Francisco, certa vez, destruiu um vaso que fizera porque roubou a sua atenção durante o Ofício Divino (cf. 2Celano 97). Santa Tereza de Ávila comparava as distrações a uma louca que corre sem parar em nossa casa, fazendo bastante barulho.

O que fazer com as distrações? O segredo está em não dar importância a elas. Quanto mais valorizá-las, mais fortes ficarão. Diante das repetidas distrações, conservemos a paz e retornemos sempre ao Santo Nome. Este é um combate no qual se luta com o escudo da paciência e as armas da perseverança e da prática cotidiana.

Os variados pensamentos e imaginações que vão surgindo durante a meditação são parecidos com paisagens que passam rapidamente pela direita e pela esquerda de quem conduz um automóvel por uma longa estrada. Com o olhar voltado para o horizonte, o condutor não se prende àquilo que passa ao seu lado. De forma semelhante, devemos voltar toda a nossa atenção para o santo Nome de Jesus, considerando sem nenhuma importância qualquer outra coisa que possa surgir no caminho.

Durante a meditação não só pensamentos e imaginações afloram em nós, mas também emoções e sentimentos de toda espécie. Mesmo quando surgem pensamentos ou sentimentos agradáveis e santos durante a meditação, nossa atenção não deve ser desviada do Santo Nome. Tudo aquilo que nos tira dele é considerado distração e, portanto, não deve roubar a nossa atenção.

Não devemos nos espantar do efeito contrário, quando queremos nos concentrar a todo custo. Não se alcança bons níveis de concentração com força e violência, mas com uma atenção amorosa e serena. É preciso ter paciência consigo mesmo, perseverar na prática diária e aguardar tempos melhores.  Tudo vai se ajustando. Nossa mente vai ficando mais tranquila e mais focada no Santo Nome de Jesus.

Não julgue como tempo perdido as distrações ocorridas durante a meditação. Mesmo que a concentração seja mínima, você vai experimentar benefícios na sua vida cotidiana. Portanto, não fique lamentando a sua falta de atenção. Saiba que o mais importante é não desistir. Meditar não é simplesmente uma questão de ficar concentrado, é antes de tudo um ato de amor e de fé.



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.


domingo, 9 de novembro de 2014

O momento presente



Você já observou como nossa mente está quase sempre voltada para o passado ou para o futuro? Geralmente, ou estamos recordando o que se passou ou estamos planejando o que estar por vir. Poucas são as vezes que nossa mente repousa com tranquilidade no tempo presente.


Esse vaguear inquieto da mente no passado ou no futuro, principalmente quando acontece de forma intensa e insistente, tira de nós a capacidade de saborear com alegria o momento presente. Dominados por essa mente inquieta, ficamos sempre ausentes daquilo que estamos vivendo e experimentando. Tudo passa a ser vivido de forma muito superficial.


A meditação nos ajuda a descobrir que entre o passado e o futuro há um tempo especial: o tempo presente. Ela faz com que o meditante passe a enxergar melhor a beleza e a singularidade de cada momento de sua vida. Essa percepção, por sua vez, confere mais alegria e serenidade ao coração de quem se entrega a essa modalidade de oração contemplativa.




A invocação do santo Nome de Jesus, quando feita com atenção amorosa, no silêncio e na quietude, vai conduzindo todo o nosso ser a repousar com serenidade no momento presente que é o tempo de Deus. Observe que não se trata de uma técnica complicada. Simplesmente nos desapegamos dos pensamentos, das imaginações e até das emoções. O centro de nossa atenção passa a ser unicamente o santo Nome de Jesus, e nada mais nos interessa durante a meditação.


Gastamos muito tempo de nossas vidas remoendo coisas que já se passaram. Quem permanece preso ao passado vive cheio de saudosismos, de melancolias, de culpas, etc. De fato, encontramos pessoas que sofrem bastante porque vivem colhendo do passado mágoas, ressentimentos, frustrações, remorsos e tristezas. Para essas pessoas se faz urgente e necessário a cura de suas feridas interiores através do perdão, o qual pode ser destinado a elas mesmas ou a outrem. Há também quem sofra bastante porque vive com um eterno saudosismo, não se abrindo às novas experiências e realidades. O tempo da infância ou juventude é considerado como o único tempo bom e ideal.


É impossível retornar ao passado. Só nos resta aceitá-lo do jeito que ele foi. Quando simplesmente o aceitamos, ele perde a tirania que tinha sobre nós. O ideal é que consigamos recordar o nosso passado sem dor ou apegos exagerados. Ter consciência de nossa própria história nos enriquece interiormente, porém nossas memórias não devem nos impedir de continuar alegremente a jornada da vida.


Já quem vive com a mente e o coração voltados de forma exagerada para o futuro passa a ser torturado pelas expectativas e ansiedades, pelos temores e preocupações, ou ainda pelos sonhos que nunca se realizam. Quem vive assim não consegue saborear com alegria e serenidade o tempo presente. Está sempre no mundo do depois. Não se alegra porque vive atormentado pela expectativa ansiosa daquilo que nem aconteceu e nem sabe se vai acontecer.






Como deve ser, portanto, nossa atitude para com o tempo passado? Para o que já passou devemos reservar a palavra “gratidão”. São Paulo diz para nós que “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28a). Por isso, devemos ser gratos por tudo aquilo que a vida nos possibilitou experimentar, sabendo que até as realidades mais amargas podem nos ajudar a crescer interiormente.


Já para com o futuro cabe muito bem a palavra “esperança”. Nada de ansiedades e expectativas exageradas. É saudável que tenhamos metas para o nosso futuro e que nos planejemos para alcançá-las. Tudo isso, porém, deve ser feito num clima de esperança, de motivação positiva e de alegria.  Quando o futuro se tornar presente, ele será melhor ou pior, de acordo com as decisões assumidas neste momento atual.






A meditação é um caminho luminoso para quem quer viver com alegria e entusiasmo o momento presente. Não se trata de desprezo pelo nosso passado e nem de irresponsabilidade para com o nosso amanhã. A meditação nos conduz suavemente a enxergar cada instante de nossa vida com uma nova visão. Tudo passa a ter sentido e beleza. De repente, um simples cafezinho ao entardecer, seja na companhia de alguém ou mesmo sozinho, pode se transformar num momento de grande prazer, de intenso aconchego e de uma profunda espiritualidade.





Paz e Bem



Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.