quarta-feira, 1 de junho de 2011

                                                                                                              


 SANTO ANTONIO,
O "DOUTOR EVANGÉLICO"
Primeiro professor de Teologia da
Ordem Franciscana




            
                 No dia 15 de agosto de 1195, na cidade de Lisboa, reino de Portugal, nascia o segundo filho de Martins de Bulhões e Tereza Maria Taveira. Fernando foi o nome escolhido para essa criança que um dia viria a se tornar um dos santos mais populares da santa Igreja. Foi batizado na Catedral de sua cidade natal, distante de sua casa apenas algumas dezenas de metros.




Sé Catedral de Lisboa onde Santo Antonio foi batizado.




Fernando de Bulhões cresceu numa família nobre e autenticamente cristã. Ele tinha um tio materno que era cônego, do qual possivelmente herdou o nome de batismo. Quando criança e adolescente, ele freqüentou a escola e o coro infantil da Catedral.


Atual Igreja construída sobre as ruínas da casa paterna de Santo Antonio
 bem em frente à Catedral de Lisboa


 
              
 Aos quinze anos de idade entrou no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, para se consagrar ao Senhor na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. Mas como era muito visitado pelos parentes e amigos, após dois anos, pediu para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz, na cidade de Coimbra. Nessa nova residência, durante oito anos, pôde dedicar-se com muita profundidade aos estudos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres.



Atuais Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa
 
 
Atual Mosteiro da Santa Cruz em Coimbra.





Em 1217, a Ordem de São Francisco se instala em Portugal. Um pequeno convento, dedicado a Santo Antonio do Deserto, conhecido também por Santo Antão, foi construído a cerca de dois quilômetros de Coimbra (capital do Reino até 1255) para abrigar aqueles primeiros frades. É bem possível que o cônego Fernando tenha tido algum contato com aqueles frades de vida muito simples e exemplar desde os primeiros tempos da fundação da Ordem Seráfica em Portugal




Em 1220, chegaram ao Mosteiro da Santa Cruz, em Coimbra, as relíquias dos primeiros mártires franciscanos, vindas de Marrocos, norte da África, onde foram evangelizar. Tocado pelo exemplo daqueles cinco mártires, o cônego Fernando pediu para ser aceito entre os filhos de São Francisco. Nesse mesmo ano, ele vestiu o hábito franciscano e passou a morar no pequeno convento de Santo Antonio dos Olivais, razão pela qual ele recebe o novo nome de “Frei Antonio”.





Atual Convento de Santo Antonio (ou Antão) dos Olivais.
Aqui  o Frei Antonio ingressou na vida franciscana.




Como o seu grande sonho era pregar o Evangelho em terras pagãs, ele consegue uma autorização para ir até Marrocos com um companheiro. Mas ao chegar naquelas terras africanas, adoeceu de tal modo que teve de voltar após alguns meses para a sua terra natal. Na viagem de volta, uma tempestade desviou o seu navio para o sul da Itália (Sicília). Chegando ali, foi acolhido pelos frades da cidade de Messina, se recuperou de suas enfermidades e se dirigiu para a cidade de Assis, onde aconteceria um capítulo geral da Ordem Franciscana.




Era o ano de 1221, e Santo Antonio iria se encontrar pela primeira vez com São Francisco. Chegaram frades de muitos lugares para o capítulo geral, mas Santo Antonio não os conhecia e nem era conhecido praticamente por nenhum deles. No final do capítulo, não tendo recebido nenhuma tarefa específica, Santo Antonio foi convidado por um provincial para ir morar no norte da Itália. E assim, no convento de Monte Paolo ele viveu na simplicidade e no anonimato, aproveitando a ocasião para dedicar-se mais intensamente à oração e à penitência.





Em 1222, Santo Antonio foi convidado para um capítulo na cidade de Forli, durante o qual alguns frades seriam ordenados presbíteros pelo bispo daquela diocese. Estavam ali também alguns frades da Ordem de São Domingos, ilustres pregadores do Evangelho. Na hora da refeição, o bispo pediu aos dominicanos que dirigissem algumas palavras aos convidados, mas todos se recusaram gentilmente. Essa mesma atitude foi seguida pelos demais religiosos que se encontravam no recinto. Santo Antonio, o último a ser consultado, prontamente obedeceu com humildade. O sermão proferido, rico de referências bíblicas, foi tão ungido que comoveu o coração de todos os presentes. Estava descoberto um grande pregador! Quem diria que aquele frade tão simples e desconhecido, poucos anos depois, seria aclamado pelo papa Gregório IX como “Arca do Testamento”? A partir daquela data, Santo Antonio recebeu o encargo de pregar o Evangelho por toda a sua província.







Após a páscoa de 1223, São Francisco, já tendo conhecimento da sabedoria de Santo Antonio, pediu-lhe para que ensinasse a sagrada teologia aos seus frades na cidade de Bolonha.












  No ano seguinte, após um curto período de ensino, Santo Antonio foi enviado à França, onde permaneceu cerca de dois anos. Sua atividade principal foi a pregação do Evangelho para a conversão dos hereges. Em 1225, na cidade de Toulouse, ele retoma por um tempo o seu ofício de professor de Teologia.






 
Depois da morte de São Francisco, ocorrida em outubro de 1226, Santo Antonio volta para a Itália para participar de um capítulo de toda a Ordem franciscana. A partir de então, ele passa a ser o provincial da Romanha, região norte da Itália, na qual já tinha morado anteriormente e onde ficará até o final de sua vida. Apesar das novas funções, ele permanece incansavelmente pregando o Evangelho de Cristo às multidões.




 

Em 1227, ele entra pela primeira vez em Pádua, cidade tomada por uma guerra civil e dominada por vícios e heresias. Ele voltará diversas vezes a essa cidade para suas atividades missionárias, obtendo grande êxito entre aquela gente.





Mais adiante, em 1230, encontramos Santo Antonio em Roma diante do papa Gregório IX, tratando de assuntos referentes à interpretação da Regra de São Francisco, juntamente com outros frades da Ordem.




Nos últimos anos de sua vida ele escreveu seus famosos “Sermões” destinados aos pregadores e professores de Teologia. Ele escreveu “sermões dominicais” e “sermões para as festividades dos santos”, comentando os textos bíblicos apresentados pela liturgia com profunda sabedoria e piedade.








Em 1231, aos trinta e seis anos de idade, retirado num eremitério e abatido pela doença, ele percebe que a morte se aproxima e, por isso, pede para ser transportado imediatamente a Pádua. Tendo piorado bastante durante o trajeto, ele faleceu nas proximidades desta cidade, num lugar chamado Arcella, no dia 13 de junho. Após algumas disputas entre os arcelanos e paduanos, o seu corpo foi finalmente sepultado no convento franciscano de Pádua. Antes de completar um ano de seu falecimento ele já estava canonizado pelo papa Gregório IX que o conhecera tão bem.








Em 1263, trinta e um anos depois da canonização, São Boaventura, Ministro Geral da Ordem Franciscana, mandou transladar os restos mortais de Santo Antonio para a basílica construída em sua honra. Quando abriram o caixão, a língua do santo estava intacta.



Basílica de Santo Antonio em Pádua.


Basílica de Pádua





No dia 16 de janeiro de 1946, o papa Pio XII declarou Santo Antonio como Doutor da Santa Igreja com o título de “Doutor Evangélico”.









Carta a Santo Antonio
(escrita por São Francisco no final de 1223 ou início de 1224)





“Eu, Frei Francisco, desejo saúde a Frei Antonio, meu bispo. Apraz-me que ensines a sagrada teologia aos irmãos, contanto que, nesse estudo, não extingas o espírito de oração e devoção, como está escrito na Regra.”








Em 1247 o Frei Tomás de Celano nos dá notícia desta carta escrita por São Francisco:


São Francisco “queria que os ministros da palavra de Deus fossem de tal modo dedicados aos estudos espirituais que não fossem impedidos por outros ofícios. (...) E afirmava: ‘O pregador deve haurir nas orações secretas aquilo que depois vai difundir em palavras sagradas; deve antes aquecer-se por dentro para não proferir palavras frias’. Dizia que este ofício devia ser respeitado e que aqueles que os exercem deviam ser venerados por todos. (...)





E considerava os doutores na sagrada teologia dignos de mais amplas honras. (...) Uma vez, ao escrever ao bem- aventurado Antonio, assim mandou que fosse colocado no princípio da carta: ‘A Frei Antonio, meu bispo’”(2Cel 163).









“O título de “bispo”, usado na Idade Média para indicar também os pregadores autorizados, certamente deve ser compreendido como participação do munus praedicandi dos bispos propriamente ditos” (nota do tradutor das Fontes Franciscanas, Ed. Vozes, 2004, pg. 107).



 Basílica de Pádua



Claustro da Basílica.



Altar que guarda os restos mortais de Santo Antonio.



Igreja sobre as ruínas da casa onde nasceu Santo Antonio.


Pia batismal onde foi batizado Santo Antonio.


              

 PAX ET BONUM!


Frei Salvio Romero,
Eremita capuchinho.

   


domingo, 1 de maio de 2011


OITAVO CENTENÁRIO DA CONSAGRAÇÃO DE SANTA CLARA E DO NASCIMENTO DE SUA ORDEM


No dia 17 de abril deste ano, Domingo de Ramos, a Família Franciscana abriu oficialmente o oitavo centenário da consagração de Santa Clara e do nascimento de sua Ordem. Todos os grupos que compõem esta grande família (Ordens, Congregações, Institutos, etc.) estão em festivo jubileu até o dia 11 de agosto do próximo ano quando, por ocasião da festa de Santa Clara, haverá o encerramento solene.


O evento da consagração de Clara de Assis marca o nascimento da II Ordem franciscana, denominada de Ordem de Santa Clara, composta de irmãs contemplativas as quais são também chamadas de “clarissas”. Elas vivem em mosteiros e se dedicam prioritariamente à oração. Segundo o site oficial desta Ordem no Brasil, existem atualmente por volta de vinte mil clarissas no mundo, distribuídas em 986 mosteiros. No Brasil, a Ordem das clarissas tem crescido bastante; já contamos com 25 mosteiros espalhados por diversas regiões do país.



No decorrer dos séculos, a Ordem de Santa Clara se ramificou em diversos grupos de acordo com a Regra e as Constituições adotadas. Atualmente, existem nove grupos distintos: Clarissas, Clarissas Urbanistas, Clarissas Coletinas, Clarissas Capuchinhas, Clarissas Sacramentinas, Clarissas da Adoração Perpétua, Clarissas Capuchinhas Sacramentinas e Clarissas da Divina Providência.


 Quando São Francisco deixou a casa paterna, em 1206, para se tornar um penitente itinerante, a menina Clara tinha apenas doze anos de idade, enquanto ele já contava com vinte e quatro anos. Imaginemos como o episódio de um jovem muito rico abandonando tudo para seguir o Cristo num modo de vida pobre e desprezível tenha abalado a pequena cidade medieval de Assis. Não deve ter havido uma só família que não tenha comentado a “lamentável história”. O que terá se passado no coração da jovenzinha Clara? Como será que ela entendeu a atitude daquele jovem burguês? Se ela ainda não tinha ouvido falar de Francisco, passou certamente a conhecê-lo a partir desta data.


A Legenda de Santa Clara (“biografia” oficial escrita provavelmente por ocasião da canonização da santa em 1255) nos informa como ela e Francisco tiveram seus primeiros encontros:

“Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo (...)

Ele, conhecendo a fama de tão agraciada donzela, não tinha menor desejo de ver e falar com ela (...). Ele a visitou, e ela o fez mais vezes ainda, moderando a freqüência dos encontros para evitar que aquela busca divina fosse notada pelas pessoas e mal interpretada por boatos.


A moça saía de casa, levando uma só companheira, e freqüentava os encontros secretos com o homem de Deus (...)
 O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora” (Legenda de Santa Clara 5).



Clara estava destinada ao casamento, segundo nos informam duas testemunhas no processo de sua canonização:

 “A testemunha conheceu a referida dona Clara quando era criança na casa de seu pai. (...) Sendo ela bonita de rosto, tratava-se de dar-lhe marido. Por isso, muitos de seus parentes lhe pediam que consentisse em casar-se. Mas ela nunca quis saber. Ele mesmo, testemunha, tinha pedido muitas vezes que ela concordasse em casar-se, mas ela não queria nem ouvir. Antes, era ela quem lhe pregava sobre o desprezo do mundo” (Proc. De Canonização 18,1-2).

“Tinha visto como seu pai, mãe e parentes queriam casá-la segundo a sua nobreza, magnificamente, com homens grandes e poderosos. Mas a jovem, que podia ter uns dezessete anos, não pôde ser convencida de modo algum, porque quis permanecer na virgindade e viver em pobreza, como depois demonstrou, pois vendeu toda a sua herança e a deu aos pobres” (Proc. De Canonização 19,2).



O que é certo é que Clara, pertencente a uma nobre família de cavaleiros, foi tocada pelo mesmo ideal do jovem Francisco. O Espírito Santo suscitou na alma dela um desejo de se consagrar inteiramente a Jesus, seguindo-o bem de perto numa vida de extrema pobreza evangélica. O Cristo que Clara descobriu no Evangelho era “Pobre e Humilde” e se fizera o menor de todos para nos salvar. Em Francisco, ela viu brilhar esse modo de vida com intensidade tão forte que ela mesma quis se tornar a sua “plantinha” como costumava dizer.


Vejamos, agora, como se deu a consagração da jovem Clara no ano de 1211 ou, segundo outros estudiosos, no ano de 1212:

“Aproximava-se a solenidade de Ramos, quando a jovem, de fervoroso coração, foi ter com o homem de Deus, para saber o que e como devia fazer para mudar de vida. Ordenou-lhe o pai Francisco que, no dia da festa, bem vestida e elegante, fosse receber a palma no meio da multidão e que, de noite, ‘deixando o acampamento’ (cf. Hb13,13), trocasse o gozo mundano pelo luto da paixão do Senhor.

Quando chegou o domingo, a jovem entrou na igreja com os outros, brilhando em festa no grupo das senhoras. Aconteceu um oportuno presságio: os outros se apressaram a ir pegar os ramos, mas Clara ficou parada em seu lugar por recato, e o pontífice desceu os degraus, aproximou-se dela e colocou-lhe a palma nas mãos.


De noite, dispondo-se a cumprir a ordem do santo, empreendeu a ansiada fuga em discreta companhia. Não querendo sair pela porta habitual, com as próprias mãos abriu outra, obstruída por pesados troncos e pedras, com uma força que lhe pareceu extraordinária.


E assim, abandonando o lar, a cidade e os familiares, correu a Santa Maria da Porciúncula, onde os frades, que diante do altar de Deus faziam uma santa vigília, receberam com tochas acesas a virgem Clara. (...) Com os cabelos cortados pela mão dos frades, abandonou seus ornatos variados. (...)



Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem, São Francisco levou-a logo para a igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa” (Legenda de Santa Clara 7-8).


Altar da Prociúncula diante do qual Clara se consagrou ao Senhor.


Como foi a reação de sua família?

“Mal voou a seus familiares a notícia, e eles, com o coração dilacerado, reprovaram a ação e os projetos da moça. Juntaram-se e correram ao lugar para tentar conseguir o impossível. Recorreram à violência impetuosa, ao veneno dos conselhos, ao agrado das promessas, querendo convencê-la a sair dessa baixeza, indigna de sua linhagem e sem precedentes na região.
Mas ela segurou as toalhas do altar e mostrou a cabeça tonsurada, garantindo que jamais poderiam afastá-la do serviço de Cristo. A coragem cresceu com o combate dos parentes, e o amor ferido pelas injúrias deu-lhe forças. Seu ânimo não esmoreceu, nem seu fervor esfriou, mesmo sofrendo obstáculos por muitos dias no caminho do Senhor e com a oposição dos familiares a seu propósito de santidade. Entre insultos e ódios, temperou sua decisão na esperança, até que os parentes, derrotados, se acalmaram” (Legenda de Santa Clara 9).


Observem o que nos diz um perito no assunto:

“Clara não era uma jovem que estava sendo encaminhada pelos pais à vida monástica. Era uma moça que tinha fugido de casa, indo ao encontro do desprezo e da desaprovação de todos. Francisco não era bispo – a quem normalmente era reservada a consagração das virgens - e nem mesmo sacerdote. E, apesar disto, se arrogou o direito, como um simples leigo, de consagrar Clara ao Senhor. (...)

A opção de Clara foi um escândalo. Na realidade, muitas jovens de nascimento nobre como Clara haviam deixado o mundo, retirando-se para mosteiros beneditinos, exatamente como aquele no qual seus parentes foram buscá-la. Por que então a escolha feita por Clara parecera tão escandalosa? (...)


Clara, depois de ter sido consagrada ao Senhor na igrejinha de Santa Maria da Porciúncula, foi conduzida por alguns companheiros de Francisco ao mosteiro de São Paulo das Abadessas. Tratava-se do mais importante e mais rico mosteiro da região. Clara ali se apresentou como uma pobre. Não trazia consigo um dote, como costumava fazer as jovens da aristocracia que escolhiam (mais ou menos de bom grado) a vida monástica.


Clara vendeu seus bens, distribuiu o resultado entre os pobres e, somente depois, apresentou-se no mosteiro.
É provável que Clara, segundo o costume da época, tivesse recebido seu dote antes de fugir da casa paterna (...) Ela resolveu não servir-se de tal dote para procurar um bom casamento que lhe teria dado segurança para sempre e reforçado a posição da família. Clara, no entanto, alienou-o e distribuiu seu resultado aos pobres” (BARTOLI, Marco. Clara de Assis, Vozes, FFB, 1998, pg. 60-62).


Vejam o que nos informa a Irmã Beatriz no Processo de Canonização de Santa Clara, sua irmã de sangue:

Clara “vendeu toda a sua herança e parte da herança da testemunha e deu-a aos pobres. E, depois, São Francisco cortou seu cabelo diante do altar, na igreja da Virgem Maria, chamada Porciúncula” (Proc. De Canonização 12,3-4).

São Francisco, após a consagração de Clara na Porciúncula, levou-a para o mosteiro beneditino de São Paulo que ficava cerca de 4 km de Assis. Pouco tempo depois ela se transfere para uma outra comunidade de religiosas que ficava mais próxima de Assis: Santo Ângelo de Panzo.
Quando Clara estava ainda em Santo Ângelo, sua irmã Inês resolve juntar-se a ela:

“Dezesseis dias depois da conversão de Clara, Inês, levada pelo Espírito divino, correu para a irmã e, contando seu segredo, disse que queria servir só ao Senhor. (...)
Quando as felizes irmãs estavam na igreja de Santo Ângelo de Panzo, aplicadas em seguir as pegadas de Cristo, (...) de repente levantaram-se contra as jovens novos ataques dos familiares. Sabendo que Inês tinha ido para junto de Clara, correram no dia seguinte ao lugar doze homens acesos de fúria e, dissimulando a malvadeza por fora, apresentaram-se para uma visita de paz.
Logo, voltando-se para Inês, pois de Clara já antes tinham perdido a esperança, disseram: ‘Por que veio a este lugar? Volte quanto antes para casa conosco’. Quando ela respondeu que não queria separar-se de sua irmã Clara, lançou-se sobre ela um cavaleiro enfurecido e, a socos e pontapés, queria arrastá-la pelos cabelos, enquanto os outros a empurravam e levantavam nos braços. Diante disso, a jovem, vendo-se arrancada das mãos do Senhor, como presa de leões, gritou: ‘Ajude-me, irmã querida, não deixe que me separem de Cristo Senhor’.
Os violentos atacantes arrastaram a jovem renitente pela ladeira, rasgando a roupa e enchendo o caminho de cabelos arrancados. Clara prostrou-se numa oração em lágrimas, pedindo que a irmã mantivesse a constância e suplicando que a força daqueles homens fosse superada pelo poder de Deus.
De repente, o corpo dela, caído por terra, pareceu fincar-se com tanto peso que, mesmo diversos homens, juntando as forças, não conseguiram de modo algum levá-lo para além de um riacho. (...)
Então, depois de longa batalha, Clara foi até lá, pediu aos parentes que desistissem da luta e deixassem a seus cuidados Inês, que jazia meio morta. Quando eles se retiraram, amargados pelo fracasso da empresa, Inês levantou-se jubilosa e, já gozando da cruz de Cristo, por quem travara essa primeira batalha, consagrou-se para sempre ao serviço divino. Então o bem-aventurado Francisco a tonsurou com suas próprias mãos e, junto com sua irmã, instruiu-a nos caminhos do Senhor” (Legenda de Santa Clara 24-26).


Após uma breve permanência em Santo Ângelo, Francisco conduz Clara e Inês para a ermida de São Damião:

Mosteiro de São Damião
“Poucos dias depois, foi para a igreja de Santo Ângelo de Panzo, mas, não encontrando nesse lugar plena paz, mudou-se finalmente para a igreja de São Damião, a conselho do bem-aventurado Francisco. Aí, cravando já no seguro a âncora do espírito, não flutuou mais por mudanças de lugar, não vacilou diante do aperto, nem teve medo da solidão. (...)

A Virgem Clara fechou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste. Abrigando-se da tempestade do mundo, encarcerou seu corpo por toda a vida (...) gerou uma fileira de virgens de Cristo, instituiu um santo mosteiro e deu início à Ordem das senhoras pobres.

(...) Nesse apertado recinto, por quarenta e dois anos, quebrou o alabastro do corpo com os açoites da disciplina, enchendo a casa da Igreja com o aroma dos perfumes.


(...) Pouco depois, já se espalhava a fama de santidade da virgem Clara pelas regiões vizinhas, e ao odor de seus perfumes correram mulheres de toda parte.

(...) Mesmo encerrada, Clara começou a clarear todo o mundo e refulgiu preclara pelos motivos de louvor.



A fama de suas virtudes invadiu as salas das senhoras ilustres, chegou aos palácios das duquesas e penetrou até nos aposentos das rainhas. (...)

Numerosas cidades ganharam mosteiros, e mesmo campos e montanhas ficaram bonitos com a construção desses celestes edifícios” (Legenda de Santa Clara 10-11).




PAX ET BONUM!

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.
        

sexta-feira, 1 de abril de 2011



SÃO FRANCISCO E AS CRIATURAS








 

Em 1979, São Francisco de Assis foi declarado “Patrono celeste dos cultores da ecologia” pelo papa João Paulo II. Com uma profunda humildade, este santo se fez o irmão menor de todas as criaturas, não querendo dominá-las e nem possuí-las. Ele amou livremente a cada uma delas sem nenhum apego egoísta.


A natureza para São Francisco é um reflexo luminoso do Criador. Nas criaturas, ele contemplava justamente aqueles traços deixados pelo Autor na sua obra. O Santo de Assis nos ensina a enxergar em cada ser criado os raios daquela Beleza incomparável e a doçura daquela Bondade eterna que é Deus. A criação nunca foi entendida por ele como um obstáculo para a comunhão com Deus, mas como uma escada que aponta para o Mistério divino.





A seguir proponho a leitura de alguns textos das Fontes Franciscanas que nos ajudarão a compreender melhor a alma do Pobrezinho de Assis no que se refere ao seu amor para com as criaturas: 



“Totalmente absorto no amor de Deus, São Francisco vislumbrava perfeitamente a bondade de Deus não só na sua alma, já ornada com toda a perfeição das virtudes, mas também em qualquer outra criatura. Por isso, dedicava especial e entranhado amor às criaturas, sobretudo àquelas nas quais via algo referente a Deus ou à religião”  (Espelho da Perfeição 113,1-2).




São Francisco “reconhece nas coisas belas aquele que é o mais Belo; todas as coisas boas lhe clamam: ‘Quem nos fez é o Melhor’. Por meio dos vestígios impressos nas coisas ele segue o Amado por toda parte e de todas as coisas faz para si uma escada para se chegar ao trono dele.





Abraça todas as coisas com o afeto de inaudita devoção, falando com elas sobre o Senhor e exortando-as a louvá-lo. Poupa os candeeiros, lâmpadas e velas, não querendo com sua mão extinguir o fulgor que era sinal da luz eterna.







Recolhe do caminho os vermezinhos, para que não sejam pisados, e manda que sejam servidos mel e ótimos vinhos às abelhas, para que não morram por falta de alimento no rigoroso frio do inverno. Chama com o nome de irmão todos os animais, conquanto entre todas as espécies de animais prefira os mansos” (2 Celano 165).




“Enchia-se muitas vezes de admirável e inefável alegria, quando olhava o sol, quando via a lua, quando contemplava as estrelas e o firmamento. Ó piedade simples, ó simplicidade piedosa!” (1 Celano 80).



“Quanta alegria julgas que a beleza das flores lhe trazia à mente, quando ele via a delicadeza da forma e sentia o suave perfume delas? (...) E quando encontrava grande quantidade de flores, de tal modo lhes pregava e as convidava ao louvor do Senhor, como se elas fossem dotadas de razão. Assim também, com sinceríssima pureza, admoestava ao amor divino e exortava a generoso louvor os trigais e vinhas, pedras e bosques e todas as coisas belas dos campos, as nascentes das fontes e todo o verde dos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento. (...) Percebia com agudeza as coisas ocultas do coração das criaturas, como quem já tivesse alcançado a liberdade gloriosa dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21)(1 Celano 81).










“Entre todas as aves, amava especialmente uma avezinha chamada cotovia, vulgarmente chamada de cotovia de capuz. Dela dizia: ‘A irmã cotovia tem um capuz como os religiosos e é uma ave humilde, porque de bom grado anda pelo caminho à procura de algum grão e, mesmo que o encontre no esterco, o retira e o come. Voando, louva o Senhor muito suavemente, como os bons religiosos que desprezam as coisas terrenas, cuja morada está sempre nos céus e a intenção é sempre o louvor de Deus. Sua veste, isto é, suas penas, assemelha-se à terra e dá exemplo aos religiosos, que não devem ter vestes delicadas e coloridas, mas de baixo preço e cor como a terra, que é mais humilde que outros elementos’.






E porque nelas considerava tudo isso, tinha o máximo prazer em vê-las. Por isso aprouve ao Senhor que as próprias avezinhas dessem um sinal de seu amor por ele na hora de sua morte. No sábado à tarde, depois das Vésperas, antes da noite em que migrou para o Senhor, grande multidão destas aves, chamadas cotovias, reuniu-se sobre o telhado da casa em que ele jazia e, voando um pouco, faziam um círculo ao redor do telhado e, cantando docemente, pareciam louvar o Senhor” (Espelho da Perfeição 113,3-9).







“Depois do fogo, amava particularmente a água, porque ela simboliza a penitência e a tribulação, pelas quais se lava a miséria da alma e porque a primeira purificação da alma é feita pela água do batismo. Por isso, quando lavava suas mãos, escolhia um lugar tal que a água que caía por terra não fosse calcada pelos pés. Até quando era preciso caminhar sobre as pedras, andava com grande temor e reverência, por amor daquele que é chamado de pedra. (...)





Também ao irmão que cortava e preparava a lenha para o fogo, recomendava que nunca derrubasse toda a árvore, mas que cortasse tais árvores de forma a sempre deixar íntegra alguma parte dela, por amor daquele que quis realizar a nossa salvação no lenho da cruz.






Igualmente recomendava ao frade que trabalhava na horta que não cultivasse toda a terra somente com ervas comestíveis, mas deixasse livre alguma parte da terra, para que produzisse ervas verdejantes que, a seu tempo, produzissem flores aos irmãos, por amor daquele que é chamado de flor dos campos e lírio dos vales (cf. Ct 2,1).





E até dizia que o frade hortelão devia fazer sempre um belo canteiro em alguma parte da horta, pondo e plantando ali todas as ervas odoríferas e todas as ervas que produzem belas flores, para que, a seu tempo, convidassem a louvar a Deus todos aqueles que vissem aquelas ervas e aquelas flores. Pois toda criatura diz e clama: ‘Deus me fez para ti, ó homem’.








Por isso, nós que vivemos com ele vimos que ele tanto se alegrava interior e exteriormente com quase todas as criaturas que, tocando-as ou vendo-as, parecia que seu espírito não estava na terra, mas no céu. E, por causa das muitas consolações que recebeu e recebia das criaturas, pouco antes de sua morte, compôs e fez alguns Louvores do Senhor por suas criaturas, para estimular ao louvor de Deus os corações dos ouvintes e para que o próprio Deus fosse louvado pelos homens nas suas criaturas” (Espelho de Perfeição 118).



São Francisco “transbordava em espírito de caridade, tendo entranhas de compaixão não só para com os homens que sofriam necessidade, mas também para com os animais privados de fala e de razão, répteis, pássaros e demais criaturas sensíveis e insensíveis. Mas entre todas as espécies de animais, amava com especial afeição e mais pronto afeto os cordeirinhos, pelo fato de que a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo nas Sagradas Escrituras é frequentemente comparada e mais convenientemente adaptada ao cordeiro. Assim também, abraçava mais carinhosamente e via mais prazerosamente todos aqueles animais nos quais principalmente pudesse ser encontrada alguma semelhança alegórica com o Filho de Deus” (1 Celano 77).




                               PAX ET BONUM 

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.